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O Castanhão

"Sobre a polêmica que gerou acaloradas discussões na Assembléia Legislativa, recentemente, sobre se deveriam ou não terem sido abertas as comportas do açude Castanhão, o que se tem visto é uma completa desinformação, principalmente dos políticos que nada entendem do assunto. Como jornalista, tenho acompanhado de perto essas discussões desde o seu início, até os dias atuais, inclusive me considero relativo conhecedor deste do assunto por dois motivos: primeiro por ser meu pai, o engenheiro Cássio Borges, um respeitável especialista do tema de recursos hídricos e, segundo, por ter lido, com muita atenção e interesse o livro “A Face Oculta da Barragem do Castanhão” de autoria do referido técnico. Vale ressaltar que o conteúdo do livro continua incontestável até os dias atuais . Tanto é verdade que até hoje nenhum técnico, ousou contestar os dados ali contidos. E a própria história tem sido a maior testemunha do que lá está escrito. Por isso mesmo, aquele profissional, que ocupou vários cargos públicos e tem uma trajetória de ética e competência inquestionáveis, podendo emitir pareceres livremente, sem qualquer receio de ser, contraditado. Agora, retomo esse debate, não apenas como jornalista, mas, também, numa conduta de simples cidadão. Sem entrar no mérito da abertura das comportas (um decisão técnica que pode dar margem a diferentes pontos de vista), outros temas vieram á tona.

No calor da discussão, o deputado Carlomano Marques chegou a afirmar, entre outras falácias (que nem merece comentário), que o engenheiro Cássio Borges teria dito que a “barragem do Castanhão não encheria nunca”. Se o referido deputado tivesse, pelo menos, folheado o livro acima mencionado, certamente não teria cometido essa insensata e insultuosa afirmação. Na verdade, a trajetória daquele parlamentar tem sido pautada pela mudança de discurso de acordo com as suas conveniências momentâneas. Portanto, além de não ter qualquer embasamento como técnico, o seu discurso não goza da mínima credibilidade. Alguém criou este mito de que o Castanhão nunca encheria e, alguns, insistem em querer que se transforme em verdade. O que o referido técnico afirmou em seus artigos e no seu livro é que a barragem do Castanhão “poderá passar de 10 a 20 anos sem sangrar”. Para se chegar a essa conclusão, foi considerada uma simulação hidrológica (uma ferramenta científica das mais eficazes) para fazer uma projeção do que poderia ocorrer com a água acumulada no açude Castanhão, baseado em dados compilados pelo DNOCS em períodos de longa duração, no caso, 70 anos.

Na verdade, o açude Castanhão, da forma como foi construído, contraria os conceitos mais modernos da engenharia mundial. Atualmente, só se constrói barragens com essas dimensões em casos extremos (quando não existem outras alternativas) ou para fins puramente hidrelétricos. Tanto isto é verdade que essa obra foi condenada por sete votos a zero no Tribunal das Águas, que tem sua sede em Copenhague, quando o mesmo se reuniu aqui no Brasil, em Santa Catarina. Lamentavelmente, aquele Tribunal só tem efeito moral e, na época, a consciência ambiental no Brasil engatinhava a passos lentos.

Trata-se de uma barragem pontual, concentradora dos recursos hídricos do vale do Rio Jaguaribe, bem próxima de sua foz, que se poderia classificar como uma obra antidemocrática, justamente por não beneficiar a maioria dos municípios daquela Região, enquanto outros foram sacrificados. Atentem para o fato de ela ter sido construída num local já perenizado pelo açude Orós, tendo praticamente (pasmem!) quase a mesma vazão regularizada daquele açude, apesar de seu volume de acumulação ser três vezes e meia maior do que este. A questão é que, coincidentemente, no ano seguinte em que a barragem do Castanhão foi construída, no ano de 2003, ela recebeu águas de um inverno extraordinário, embora concentrado apenas no mês de janeiro, quando choveu mais de 400 milímetros. Ocorrência que não foi registrada no século passado, cuja média histórica de janeiro é de 90,8 milímetros. A simulação hidrológica, acima referida, mostrou que depois da quadra invernosa de 1985 quando a barragem do Castanhão, se estivesse construída, com certeza teria enchido. E ela somente viria encher novamente no ano de 2004, portanto num intervalo de 19 anos. A mesma conclusão se chegaria em relação ao açude Orós. Este açude passou, de fato, 19 anos sem sangrar, o que somente ocorreu no ano de 2004.

Do ponto de vista da piscicultura, já se comprovou que não é preciso uma barragem muito profunda para este fim, pois os especialistas dizem que os peixes somente vivem, em açudes, até uma profundidade de oito metros. O Castanhão tem 60 metros. A alternativa de várias barragens de porte médio democratizaria não só os recursos hídricos, beneficiando quase todos os municípios, como também a piscicultura para a população mais carente do nosso Estado. Já se tem plena consciência de que o Castanhão não controla enchentes excepcionais como as de 1974 e 1985, tomando-se esses dois anos como exemplos. A maioria da população cearense julga que a barragem do Castanhão já está abastecendo de água a Região Metropolitana de Fortaleza, o que não é verdadeiro, apesar de já estar construída há mais de seis anos. Além do que, no futuro existem outras alternativas para reforçar o abastecimento da Capital. Foram tantos os benefícios que já atribuíram a essa barragem, sendo uma de suas primeiras finalidades a irrigação de 75.000 hectares na Chapada do Apodi, idéia hoje totalmente descartada. Afinal, chegou-se à conclusão que fazer bombeamento da água a 120 metros de altitude só se fosse para “irrigar ouro”, pelo elevado custo da energia.

Não resta dúvida, entretanto, que o açude Castanhão hoje, entre outros benefícios, tem como um dos principais destaques, ser uma bela obra de engenharia (louve-se o DNOCS) para ser vista além de ser um espaço privilegiado para turismo e lazer. Um verdadeiro oásis em pleno sertão cearense. Agora, o que se recomenda fazer - já que não foram feitas as outras alternativas- é operar a barragem de forma adequada e, tecnicamente, como deve ser feita, dentro das finalidades previstas para esse empreendimento. Mas para gerir essa obra gigantesca, especialistas da área precisam ser muito criteriosos, pois uma gestão inadequada pode ocasionar danos irreparáveis e perdas de preciosas vidas humanas, além de grandes prejuízos às lavouras de vazantes ao longo do rio como as que ocorreram este ano quando, as comportas do açude foram abertas. Daí a discussão técnica (que não entro no mérito) se as comportas deveriam ter sido abertas logo após o inverno passado (para se evitar esses impactos) ou antes da atual quadra invernosa. O que se lamenta, desse fato recente, é que alguns políticos, sem qualquer base técnica, emitirem suas opiniões que terminam por confundir a opinião pública.

Marcos André Borges, jornalista e consultor de comunicação."

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