O Banco do Nordeste (BNB) assumiu papel de protagonismo nos debates globais sobre resiliência climática durante a COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD). No painel “Financiamento Climático para Regiões Semiáridas”, realizado nesta segunda-feira (24), no Pavilhão Brasil (Blue Zone), o BNB apresentou soluções financeiras voltadas para a sustentabilidade, o combate à desertificação e a preservação do bioma Caatinga.
Com um território sob sua atuação que abrange 1,3 milhão de km² de semiárido e abriga, nesta sub-região, mais de 32 milhões de pessoas, o Banco do Nordeste consolidou-se como o principal agente de financiamento climático da região. Para o ano de 2026, o banco projeta aplicar mais de R$ 5,1 bilhões em sua linha FNE Verde, o que equivale a 9,6% do orçamento total do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE). A relevância ambiental da carteira do Banco é histórica: entre 2023 e 2025, 72,43% dos créditos contratados pela instituição foram classificados como de contribuição positiva de natureza social, ambiental e climática, utilizando metodologia baseada na taxonomia verde da Federação Brasileira de Bancos - Febraban.
Três pilares para a convivência com o Semiárido
Durante sua apresentação no painel, o diretor de planejamento do Banco do Nordeste, José Aldemir Freire, explicou que a atuação da instituição na preservação da Caatinga se divide em três frentes estratégicas:
• Financiamento para a prática de agricultura sustentável
• Financiamento para a restauração e preservação do bioma
• Disponibilização de recursos não reembolsáveis para projetos de restauração em pequenas propriedades
Aldemir Freire destacou que, como a Caatinga tem entre 82% e 84% de seus estabelecimentos rurais formados por agricultores familiares, o crédito tradicional muitas vezes enfrenta barreiras, como a falta de regularização fundiária. “Garantir crédito é garantir que essas famílias tenham acesso a práticas adequadas de agricultura capazes de conservar a Caatinga e também de restaurá-la e utilizá-la de maneira sustentável para o seu desenvolvimento familiar e para o desenvolvimento da região”, afirmou o diretor.
Para enfrentar esse desafio, o Banco também estruturou seu Fundo Sustentabilidade. A iniciativa destina recursos não reembolsáveis, provenientes do resultado financeiro da instituição. Os recursos apoiam projetos voltados à mitigação e à adaptação aos impactos de eventos climáticos extremos e de alterações ambientais de longo prazo.
Também são financiadas iniciativas de prevenção, monitoramento e combate ao desmatamento e à desertificação, bem como ações de recuperação de áreas degradadas, incluindo reflorestamento com espécies nativas e sistemas agroflorestais. O Fundo apoia também projetos de conservação, preservação e recuperação ambiental, além da proteção e promoção da biodiversidade e dos biomas regionais, entre outras iniciativas.
O BNB conta ainda com o Fundo de Desenvolvimento Econômico, Científico, Tecnológico e de Inovação (Fundeci), que aporta recursos não reembolsáveis para pesquisa, inovação e difusão de tecnologias sociais. Como parte de sua estratégia de fortalecimento do desenvolvimento sustentável da região. Os dois fundos somados disponibilizaram cerca de R$ 120 milhões em recursos não reembolsáveis somente nos anos de 2025 e 2026.
Parcerias de impacto e restauração em larga escala
O Banco do Nordeste tem atuado de forma coordenada com parceiros nacionais e internacionais para ampliar o impacto de suas ações de restauração ambiental. Em parceria com o BNDES, o BNB cofinancia editais que já apresentam resultados expressivos:
• Um primeiro edital conjunto de R$ 26 milhões viabilizou 11 projetos que estão restaurando 1.600 hectares.
• Em complemento, um edital próprio do BNB de R$ 15 milhões selecionou sete projetos adicionais para recuperar 371 hectares.
• Um terceiro edital, lançado em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e com o BNDES, no valor global de R$ 60 milhões, recebeu 44 inscrições de projetos, totalizando uma demanda de quase R$ 160 milhões para restaurar 3.700 hectares.
Somadas as iniciativas, o BNB já estruturou um pipeline de projetos de restauração que alcança quase seis mil hectares. Além disso, o Banco está avançando em novas parcerias com o Consórcio Nordeste e governos estaduais, como o do Rio Grande do Norte, de modo a ampliar a escala desses investimentos.
Alinhamento global pela Caatinga
O evento reuniu especialistas de alto nível que reforçaram a necessidade de soluções conjuntas e inovadoras para as terras secas:
Louise Baker (diretora executiva do Mecanismo Global da UNCCD): em vídeo gravado para o evento, destacou que o capital global existe, mas demanda propostas estruturadas de investimento. “O que ainda nos falta são bons projetos e programas, proposições de investimento de escala suficiente, preparação técnica, estruturação de risco e apoio institucional, que é precisamente por que o estado brasileiro merece a atenção desta sala [com o] Fundo Caatinga e o Plano Brasil Nordeste de Transformação Ecológica (PTE-NE)”.
André Aquino (especialista líder do Banco Mundial): alertou para a escassez de recursos públicos internacionais concessionais e defendeu o uso inteligente de verbas públicas para atrair o setor privado. “A grande aposta hoje é na utilização de parcos recursos públicos para mobilização do setor privado para reduzir as barreiras de investimento privado em setores que trazem benefícios para a natureza”.
Vilmar Thewes (gerente de Finanças Sustentáveis do Banco do Brasil): ressaltou a convergência de desafios com outras agendas, como a da Amazônia, apontando que “práticas agrícolas corretas, agricultura de baixo carbono, são parte da solução” e que os recursos não reembolsáveis devem ser estrategicamente usados para mitigar problemas de garantias de crédito dos pequenos produtores.
Julio Salarini (coordenador do Fundo Amazônia no BNDES): sugeriu que o Fundo Caatinga se desenvolva sob o conceito de uma “plataforma de financiamento com diferentes naturezas de recurso, onde possamos trabalhar com blended finance, alocando melhor os riscos”, inspirando-se no modelo de governança e credibilidade do Fundo Amazônia.
Glauber Piva (representante do Consórcio Nordeste): defendeu o papel proativo da região frente aos desafios climáticos globais: “o Nordeste pode ser o grande laboratório global de soluções para as terras semiáridas e desertificadas do mundo”, celebrando a articulação conjunta dos nove governadores para a criação do Fundo Caatinga.
Com essa atuação na COP17, o Banco do Nordeste reafirma seu papel como elo entre as agendas de desenvolvimento sustentável, combate à desertificação e justiça socioambiental no Semiárido Brasileiro.
SOBRE O BANCO DO NORDESTE
O Banco do Nordeste (BNB) é o banco de desenvolvimento regional federal responsável pela operação do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE). Atua em toda a região Nordeste e nas porções do Norte de Minas Gerais e Espírito Santo. É hoje o principal agente de financiamento climático da região, liderando a aplicação de recursos multilaterais e créditos verdes destinados à transição ecológica e descarbonização.
SOBRE O CONSÓRCIO NORDESTE
O Consórcio Interestadual de Desenvolvimento Sustentável do Nordeste (Consórcio Nordeste) é uma instância de cooperação federativa que reúne os nove estados da região Nordeste do Brasil. Criado em 2019, articula políticas públicas e estratégias comuns de inserção internacional, captação de investimentos climáticos e fortalecimento da resiliência hídrica e preservação do bioma Caatinga.

Comentários
Postar um comentário