A Casa Cor Ceará 2026 abriu suas portas antecipadamente nesta terça-feira, 13 de outubro, em um preview exclusivo voltado para jornalistas, arquitetos e influenciadores digitais.
O Blog do Lauriberto esteve presente no local para conferir em primeira mão todas as novidades conceituais e espaciais que devem ditar as tendências do morar contemporâneo. Para o público geral, a abertura oficial dos portões acontece nesta quinta-feira, dia 15 de outubro, a partir das 16 horas.
Em sua 28ª edição, o evento reúne um elenco de 51 profissionais responsáveis pela concepção de 35 ambientes originais, além de envolver mais de 140 empresas fornecedoras do setor da construção e decoração. Ocupando pela terceira vez consecutiva o mesmo endereço residencial, a mostra encarou o desafio de se reinventar por completo, promovendo transformações marcantes desde a calçada até o hall de entrada e as áreas livres de convivência.
Como resumiu a organizadora Neuma Figueiredo sobre a renovação do espaço: "Foi um grande desafio fazermos algo diferente, desde a calçada e a entrada da casa principal até toda essa parte externa. E conseguimos: está surpreendente".
Manifesto do luxo afetivo e brasilidade autoral
Longe do apelo dos tons frios, do mármore impessoal e do excesso de produtos importados que ditaram temporadas passadas, a edição de 2026 consagra um novo posicionamento: o verdadeiro luxo reside na autenticidade brasileira, na fatura manual e na memória emocional. A arquitetura apresentada afasta a ostentação estética para firmar um compromisso autoral com a identidade nordestina, aliando a sabedoria vernácula e os materiais da terra ao design contemporâneo.
Esse movimento de contraposição aos modismos padronizados é traduzido com precisão pela arquiteta Ticiana Sanford, responsável pelo espaço em tributo à artista têxtil Guiomar Marinho.
Para a profissional, o público busca resgatar a verdade dos lares: "Acho que as pessoas estão muito cansadas da pasteurização que as redes sociais mostram. Elas começam a olhar e pensar: preciso de um lugar com mais identidade, que realmente me represente".
De acordo com a arquiteta, os lares contemporâneos não devem se assemelhar a showrooms estéreis ou intocáveis, mas sim incorporar móveis soltos, papéis de parede marcantes e acervos afetivos que permitam ao morador transformar seu habitat continuamente.
Cores quentes e a primazia da arquitetura sensorial
Outro vetor marcante pelos corredores e livings da mostra é a despedida do cinza impessoal e a superação da hegemonia do bege. A paleta cromática de 2026 ressurge aquecida, vibrando em nuances de vinho, bordô, terracota rosado, amarelo-mostarda e marrom terra. Essa inflexão cromática surge acompanhada de uma profunda ênfase nas texturas táteis, em que o design sensorial assume o protagonismo na experiência de habitar os espaços.
Ao detalhar as escolhas estéticas de seu ambiente, a arquiteta Carol Mendonça sintetizou a força desse acolhimento: "Saímos de uma leva muito grande de bege e cinza e trouxemos realmente as cores quentes, que acolhem. Hoje o sensorial está muito em alta, com texturas que abraçam".
Essa proposta se materializa em tapetes de altura intermediária que proporcionam pisadas aconchegantes ao transitar de piso, além de assentos em tecido bouclé, poltronas em couro caramelo e móveis com formas curvilíneas e modulares.
Homenagens históricas: arte têxtil e tradição moveleira
A memória e a trajetória de grandes personalidades cearenses estruturam dois dos ambientes mais emblemáticos da mostra. A primeira homenagem oficial celebra a vida e a obra de Guiomar Marinho, pioneira artista, artesã e tapeceira cearense que, já na década de 1960, promovia ações de impacto social ao percorrer cidades do sertão para capacitar mulheres no ofício do bordado.
Hoje aos 94 anos, sua estética maximalista e sua profusão de cores serviram de inspiração direta para o projeto assinado por Ticiana Sanford.
Paralelamente, a mostra presta tributo ao legado de Rogério Aguiar, empresário e líder público de papel determinante na industrialização regional e na consolidação do polo moveleiro cearense.
O ambiente concebido pela arquiteta Miriam Bastos faz alusão ao seu perfil realizador e ao seu universo pessoal, incorporando peças escultóricas como uma mesa entalhada em tronco maciço, coleções de arte plástica e os tradicionais dicionários de alemão e francês que marcaram sua rotina.
Bioclimatismo, biofilia e artesanato elevado ao design
A relação com a luz solar e a ventilação natural também ganha destaque técnico e poético na edição. Um dos projetos mais comentados utiliza painéis escultóricos de tijolos cerâmicos vazados erguidos em pé-direito duplo. Inspirada na tradição construtiva nordestina, a estrutura atua simultaneamente como elemento de filtragem bioclimática e divisória de luz e sombra, transformando ventilação e estética em uma única solução.
A biofilia, por sua vez, deixa de ser mero adorno paisagístico para assumir função estruturante. Em um dos living-bars do circuito, prateleiras em azul-petróleo e blocos de vidro convivem com cascatas de jiboias pendentes, composições com cocos in natura no piso e fibras orgânicas, forjando uma selva urbana sofisticada com sotaque litorâneo.
O artesanato regional comparece despojado do caráter de souvenir para reivindicar posição de alta linhagem no desenho de interiores. A palha de carnaúba se transforma em esculturas luminosas por meio de pendentes totêmicos de grande porte, enquanto a cerâmica artesanal, a fibra de coco e peças trançadas em formato de peixe pontuam os ambientes com rigor técnico e sensibilidade.
Morar afetivo: literatura, infância e a cozinha como palco
O resgate das raízes culturais se manifesta com força em uma sala em tom mostarda. A convivência e o ritual do encontro em casa também ganham novos contornos nos bares intimistas esculpidos em curvas com iluminação cênica.
O afeto familiar e a convivência estendem-se também aos espaços infantis da mostra, como no quarto compartilhado por dois irmãos (de 2 e 5 anos), projetado de forma lúdica com estruturas de escalada, escorregador, nichos para lembranças de viagens, cineminha integrado e mobiliário rebaixado para garantir autonomia às crianças.
Completando o percurso, a cozinha gourmet se desfaz da postura de espaço secundário e assume o papel de coração ativo da casa. Revestida em azulejos terracota rosados, o espaço agrega coleções de garrafas coloridas em prateleiras retroiluminadas, obras de arte bem-humoradas, pôsteres vintage e hortas funcionais integradas à bancada de preparo.
Com os pés fincados na terra e um olhar apurado para o design contemporâneo, a Casa Cor Ceará 2026 comprova que morar com história, identidade e afeto é o manifesto definitivo da arquitetura atual


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