Doutor Alfredo Holanda alerta: fim das bets não acaba com a dependência e exige atenção aos sinais de perda de controle
Com novas medidas contra as plataformas e campanha nacional de prevenção, psiquiatra explica como identificar quando o jogo deixa de ser diversão, os impactos na saúde mental e as possibilidades de tratamento
O avanço das medidas contra as apostas online no Brasil coloca em evidência um problema que não desaparece junto com as plataformas: os impactos deixados em pessoas que desenvolveram uma relação compulsiva com o jogo. Dívidas, conflitos familiares, ansiedade, alterações de humor e tentativas repetidas de recuperar o dinheiro perdido estão entre os sinais que podem indicar que a aposta deixou de ser entretenimento e passou a representar um problema de saúde.
O assunto ganhou ainda mais relevância nos últimos dias. Em 1º de outubro, o Ministério da Saúde iniciou uma nova etapa da Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online, reforçando orientações para que a população reconheça comportamentos de risco e procure atendimento. O transtorno do jogo é reconhecido como um transtorno de comportamento aditivo.
Para o médico psiquiatra Dr. Alfredo Holanda, um dos maiores desafios é perceber que o problema nem sempre começa com grandes perdas financeiras.
- Muitas vezes, a família só percebe a gravidade quando aparece uma dívida importante. Mas os sinais podem surgir antes. A pessoa passa a pensar constantemente na próxima aposta, aumenta o tempo dedicado ao jogo, tenta recuperar aquilo que perdeu e começa a esconder quanto está gastando. A perda de controle é um sinal muito importante”, explica.
Quando a aposta deixa de ser diversão?
Entre os comportamentos que merecem atenção estão esconder ou mentir sobre o tempo e o dinheiro gastos com apostas, comprometer salário ou economias, tentar recuperar prejuízos fazendo novas apostas, apresentar mudanças no sono e no humor, abandonar atividades importantes e enfrentar conflitos familiares relacionados ao jogo.
Segundo Dr. Alfredo Holanda, outro alerta aparece quando a pessoa tenta parar, mas não consegue manter essa decisão.
- Quando alguém percebe que está tendo prejuízos, decide que vai parar e, mesmo assim, volta repetidamente às apostas, precisamos olhar para esse comportamento com atenção. Não é simplesmente uma questão de força de vontade. Existe um transtorno reconhecido e existem formas de tratamento”, afirma o psiquiatra.
O problema também não se resume ao apostador. Familiares podem enfrentar endividamento, desgaste emocional, quebra de confiança e conflitos dentro de casa.
“É comum que a família descubra o problema já em uma fase de prejuízo. Por isso, conversar sem julgamento e buscar ajuda profissional é mais produtivo do que simplesmente cobrar que a pessoa pare. Quanto mais cedo essa relação problemática com o jogo for identificada, maiores são as possibilidades de intervenção”, acrescenta.
Ceará também acende o alerta
No Ceará, o tema já passou a integrar ações de educação financeira promovidas pelo Estado. Em setembro, uma iniciativa voltada inicialmente a servidores e posteriormente ampliada para estudantes da rede pública e população em geral incluiu o combate ao vício em apostas entre seus eixos, ao lado da renegociação de dívidas e da prevenção de fraudes.
Um caso registrado no Estado também mostrou a dimensão do problema. Em julho, o Procon Ceará multou uma plataforma de apostas em mais de R$ 850 mil após uma consumidora que havia solicitado formalmente sua autoexclusão por compulsão conseguir realizar novo cadastro e voltar a fazer depósitos.
Dependência em apostas tem tratamento
O tratamento pode variar de acordo com a gravidade do quadro e as necessidades de cada paciente. A avaliação profissional é importante também para identificar condições que podem aparecer associadas ao problema, como ansiedade, depressão, alterações do sono, uso de álcool ou outras substâncias e dificuldades no controle dos impulsos.
A psicoterapia é uma das principais estratégias utilizadas no cuidado de pessoas com transtorno do jogo. Abordagens como a terapia cognitivo-comportamental podem ajudar o paciente a reconhecer gatilhos, pensamentos e comportamentos associados às apostas e desenvolver estratégias para lidar com o impulso de jogar.
O acompanhamento psiquiátrico também pode fazer parte do tratamento, principalmente quando existem outros transtornos mentais associados. Medicamentos não são indicados automaticamente para toda pessoa com problema relacionado às apostas; a necessidade deve ser avaliada individualmente pelo médico, considerando o quadro clínico e eventuais condições associadas.
Outra medida importante é dificultar o acesso ao jogo, inclusive por meio de mecanismos de autoexclusão, além de organizar o acesso ao dinheiro e, quando necessário, contar temporariamente com apoio familiar para reduzir situações que favoreçam novas apostas.
- O tratamento não se resume a dizer para a pessoa simplesmente parar de jogar. Precisamos compreender os gatilhos, trabalhar a perda de controle, tratar condições associadas quando elas existem e reconstruir gradualmente aspectos da vida que foram afetados. Em alguns casos, o envolvimento da família também é muito importante nesse processo”, explica Dr. Alfredo.
Para Dr. Alfredo Holanda, esperar que as dívidas se tornem insustentáveis não deve ser o parâmetro para procurar atendimento.
- Se a aposta começa a determinar o humor, comprometer dinheiro destinado às despesas da casa, provocar mentiras, conflitos ou a sensação de que é preciso continuar jogando para recuperar o que foi perdido, já existe motivo para buscar avaliação. Quanto mais cedo houver reconhecimento e cuidado, melhor”, conclui.

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