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Museu da Fotografia exibe mostra 'Orixás'

O Museu da Fotografia Fortaleza (MFF) inaugura neste sábado (12), a segunda exposição de Pierre Verger na capital cearense, 14 anos depois da primeira. 'Orixás' (foto Divulgação) chega ao MFF (Rua Frederico Borges, 545 - Varjota) como parte de ações comemorativas em homenagem aos 30 anos da Fundação Pierre Verger, que funciona na mesma casa em que Pierre Fatumbi Verger viveu durante anos, na Ladeira da Vila América, em Salvador (BA).


Com curadoria de Alex Baradel, responsável pelo acervo fotográfico da Fundação, a mostra traz 65 obras do artista autodidata que dedicou grande parte de seu trabalho aos Deuses africanos trazidos para o Novo Mundo através do tráfico de negros escravizados e que se espalharam pelo Brasil, notadamente na Bahia.

Sábado (12), a partir de 10 horas, acontece a abertura da exposição com visita mediada, além da fala de Dona Cici, parte do patrimônio vivo da Fundação Pierre Verger, explicando a cultura do Candomblé e contando histórias da sua relação com o artista. Às 14 horas, palestra do curador Alex Baradel e o lançamento da nova edição do livro Orixás, Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo.

Orixás são os deuses africanos cultuados no candomblé, religião afro-brasileira cujas matrizes provêm de diversas regiões do continente africano e que chegou à Bahia durante o período do século XVII ao século XIX. Pierre Fatumbi Verger focou o seu trabalho especificamente no candomblé Nagô-Ketu, forma de culto que tem a sua origem nos países do Golfo do Benim. Ele realizou inúmeras viagens entre a Bahia e essa região, nos anos de 1948 a 1978, tornando-se um importante mensageiro entre esses dois mundos.

O artista foi um dos primeiros autores a destacar as influências culturais e religiosas recíprocas, tanto a das tradições africanas na Bahia, notadamente através do candomblé, quanto as da Bahia na África, por meio do retorno de brasileiros afrodescendentes, livres da escravização que, ao regressarem à sua terra, levaram consigo conhecimentos em diversas áreas como o urbanismo, com a arquitetura, e as culturais, com o Bumba Meu Boi, a Festa do Bonfim entre outras.

Segundo o curador, Alex Baradel, “Orixás” é uma obra-chave.  Até hoje, a obra de Verger constitui-se em uma inigualável fonte de informações sobre os cultos afro-brasileiros e revela elementos sobre as suas raízes africanas. O livro traz os conhecimentos do Fatumbi que, nesse contexto religioso, sabia o que fotografar, como fotografar e como apresentar, ou não, as imagens produzidas. Traz também a poesia e a criatividade plástica do Pierre Verger, um autodidata que rejeitou o modo de vida no qual ele foi educado, para ir ao encontro de outras formas de viver e de pensar, nos cincos continentes, associando viagem, encontro e fotografia, criando assim uma obra visual singular que ainda está sendo descoberta. Essa exposição e a fotografia do Fatumbi, de forma mais geral, vivem nesse lugar onde a imagem flutua entre o informativo e o poético, oferecendo, além da descoberta de uma religião e das suas raízes, uma viagem a um mundo onírico”, explica.

Verger revelou para o mundo a cultura e a religiosidade afro-brasileira do candomblé. A mostra inaugurada no Museu da Fotografia Fortaleza destaca as cerimônias, as características de cada orixá, além do descritivo dos arquétipos da personalidade de devotos dos respectivos orixás. Para a nova exposição temporária do MFF é preparada desde a clássica contação de histórias, com Dona Cici, até moderna tecnologia. Diversas ações para inclusão de acessibilidade já foram realizadas pelo Museu e a novidade deste material é a leitura de QR Code através de dispositivos móveis, para que deficientes visuais possam ouvir conteúdo descritivo acerca das obras.

Perfil Pierre Verger – Pierre Edouard Léopold Verger (1902-1996) foi um fotógrafo, etnólogo, antropólogo e pesquisador francês que viveu grande parte da sua vida na cidade de Salvador, capital do estado da Bahia, no Brasil. Ele realizou um trabalho fotográfico de grande importância, baseado no cotidiano e nas culturas populares dos cinco continentes. Além disto, produziu uma obra escrita de referência sobre as culturas afro-baiana e diaspóricas, voltando seu olhar de pesquisador para os aspectos religiosos do candomblé e tornando-os seu principal foco de interesse. Desembarcou na Bahia, em 1946, enquanto a Europa vivia o pós-guerra e Salvador era tudo tranquilidade. Logo foi seduzido pela hospitalidade e riqueza cultural que encontrou na cidade e acabou ficando. Como fazia em todos os lugares onde esteve, preferia a companhia do povo e dos lugares mais simples. Os negros, em imensa maioria na cidade, monopolizavam a sua atenção. Além de personagens das suas fotos, tornaram-se seus amigos, cujas vidas Verger foi buscando conhecer com detalhes. Quando descobriu o candomblé, acreditou ter encontrado a fonte da vitalidade do povo baiano e se tornou um estudioso do culto aos orixás. Esse interesse pela religiosidade de origem africana lhe rendeu uma bolsa para estudar rituais na África, para onde partiu em 1948. Foi na África que Verger viveu o seu renascimento, recebendo o nome de Fatumbi, "nascido de novo graças ao Ifá", em 1953.

A intimidade com a religião, que tinha começado na Bahia, facilitou o seu contato com sacerdotes e autoridades e ele acabou sendo iniciado como babalaô - um adivinho através do jogo do Ifá, com acesso às tradições orais dos iorubás. Além da iniciação religiosa, Verger começou nessa mesma época um novo ofício, o de pesquisador. O Instituto Francês da África Negra (IFAN) não se contentou com os dois mil negativos apresentados como resultado da sua pesquisa fotográfica e solicitou que ele escrevesse sobre o que tinha visto. A contragosto, Verger obedeceu. Depois, acabou se encantando com o universo da pesquisa e não parou nunca mais. Apesar de ter se fixado na Bahia, Verger nunca perdeu seu espírito nômade.

A história, os costumes e, principalmente, a religião praticada pelos povos iorubás e seus descendentes, na África Ocidental e na Bahia, passaram a ser os temas centrais de suas pesquisas e sua obra. Ele passou a viver como um mensageiro entre esses dois lugares: transportando informações, mensagens, objetos e presentes. Como colaborador e pesquisador visitante de várias universidades, conseguiu ir transformando suas pesquisas em artigos, comunicações e livros. Em 1960, comprou a casa da Vila América. No final dos anos 1970, ele parou de fotografar e fez suas últimas viagens de pesquisa à África.


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