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Conheça as mulheres trans que constroem Políticas Públicas no Ceará

Celebrado em 29 de janeiro, o Dia da Visibilidade Trans é momento de reforçar as reflexões sobre a cidadania de pessoas travestis, transexuais (homens e mulheres) e não-binárias (que não se reconhecem nem como homens nem como mulheres). 

Nesta data, em 2004, foi lançada pelo Ministério da Saúde a campanha “Travesti e Respeito”. Embora a luta ainda esteja no começo, no Ceará foram registrados alguns avanços. O direito ao nome social nos serviços e órgãos estaduais, por exemplo, já é realidade desde 2017.



No sistema estadual de ensino, essa determinação é ainda anterior, datando de 2012. Em 2018, o Ceará também avançou na autorização da mudança de gênero no registro civil sem a necessidade de processo judicial. Ainda é preciso avançar, principalmente, no que se refere à inserção das pessoas trans no mercado de trabalho. E é mostrando exemplos de pessoas que conseguiram superar os obstáculos, que a Secretaria da Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos (SPS) conta a história de três mulheres trans que participam da construção de políticas para as mulheres e para a população LGBT cearense.

Nascida em Fortaleza, Samilla Aires, de 36 anos, entendeu cedo o que eram os espaços de exclusão. Ela é a primeira de quatro filhos de pais evangélicos. “Não havia um ambiente tão propício para vivenciar a transexualidade. Na infância eu já entendia que não era menino e não tinha atingido ser menina, mas imaginava que um dia seria. A adolescência é um ponto crucial. Como sou de família evangélica, sempre íamos à igreja e lá não se falava nada sobre transexualidade. Eu era curiosa e fui em busca de entender, até que me identifiquei”, explica. Então Samilla nasceu em 2011. Foi quando iniciou sua transição. O processo foi doloroso. Não era possível ser Samilla dentro de casa. E ela saiu para o mundo em busca de conhecimento.

“Em 2005 fundamos o Grupo de Amor e Prevenção pela Vida, em Maracanaú. Formamos uma instituição que cobrava ações da gestão local. E começamos a lutar por melhorias Essa efervescência foi crucial para minha personalidade”, destaca a hoje orientadora de célula da coordenadoria de Políticas Públicas para LGBT da SPS.

A coordenadora de Articulação Regional de Políticas para Mulheres da SPS, Silvinha Cavalleire, de 27 anos, também se reconheceu garota trans ainda na infância. “Em 2004 interpretei uma personagem feminina em sala de aula. E ela se chamava Silvia. Era casada, mãe de um bebê, profissional. A peça girava em torno de uma discussão entre ela e o marido. O marido usava de argumentos muito machistas. E ela, feminista, contrapôs os argumentos de maneira muito firme. Defendi essa personagem de forma que Silvia jamais saiu de mim. Por isso a identidade feminina que escolhi é Silvia. E desde então fui enfrentando o mundo inteiro para ser a Silvia que sou hoje. Comecei enfrentando a mim mesma”, explica.

“Percebi que não havia nada de errado comigo. Havia com a sociedade que quer taxar pessoas a partir de um órgão. Podemos ir além disso”, constata. No réveillon de 2011, Silvinha decidiu que jamais voltaria a ser um garoto. “Passei a encarar o mundo como nós mulheres encaramos. Somos perseguidas, rebaixadas, humilhadas, como se devêssemos estar num lugar de subalternidade quando só lutamos por equidade. E fui vendo que, enquanto mulher trans, teria mais dificuldade para encontrar meu lugar. Queria estar no meio das mulheres, mas muitas não me queriam nesse lugar, e não queria ser homem e eles não me queriam naquele lugar. E foi aí que me achei na militância”, destaca Silvinha.
História folhetinesca


Vigésima quinta filha de uma família humilde da cidade de Morada Nova, Lucivania Sousa, 30, tem uma história folhetinesca cujos elementos foram fundamentais para a construção de sua identidade. “Minha mãe sofria de depressão pós-parto. Após o nascimento da primeira filha, entrou em surto e veio a Fortaleza para ser internada. Meu pai procurou uma das primeiras filhas do primeiro casamento e pediu que ficasse com o bebê temporariamente. Catarina, minha irmã, acolheu a criança. Minha mãe engravidou outras duas vezes. Finalmente nasci: a 25º filha de meu pai e a quarta filha de minha mãe. Novamente ela teve um surto. Catarina, que hoje tem 70 anos, enquanto tenho 30, então imagine a diferença de gerações, recebeu mais uma criança. Numa época em que adoções nem eram necessariamente legalizadas, Catarina pediu a nosso pai que ele desse as crianças para ela criar em definitivo. Em nossos documentos, nosso pai biológico aparece como avô. Catarina é a irmã que se tornou mãe”, destrincha.

Assistente social, Lucivania integra a equipe da coordenadoria de Políticas Públicas para LGBT da SPS e conta que a relação familiar não chegava a ser hostil. “Eles nunca me puniram agressivamente, mas tentaram me dissuadir de que eu não era uma menina”, explica. Já universitária, passando por uma depressão profunda, ela pensou em tirar a própria vida. “Um dia, na plataforma do trem, estava cansada de trabalhar um personagem que não conseguia manter e que claramente não era eu. Olhava para o trem e me vinha um pensamento ‘vai, acaba com essa dor, já chega, você não vai conseguir ser quem você quer’. E quando o trem chegou eu joguei o Lucivânio. Só ele. Joguei o passado. Naquele dia eu morria e renascia”, reflete.

Na vida acadêmica, Lucivânia encontrou acolhimento. “Enquanto estudava, ia formando meus professores em direitos humanos, com recorte no respeito à população LGBT e enfoque na população transgênero. Toda a universidade viu minha transição. Foi quando me senti digna de construir um protagonismo de vida para além da universidade. Fui me capacitar. E foi um processo de recomeço. Quanto mais me capacitava, mais portas abria. Mas é importante ressaltar os privilégios que tive: sou uma mulher branca, tive acesso à universidade e apoio familiar. Esses fatores foram decisivos para que eu conseguisse, como pessoa transgênero, me incluir no mercado de trabalho”, ressalta.

Para Silvinha, o caminho universitário foi mais espinhoso. Ameaças e ofensas, proibição de uso dos banheiros femininos. Transfobia. “Produzi um manifesto para dialogar com a comunidade acadêmica. Passei uma semana distribuindo material e conversando com as pessoas. Não recuei. Tinha certeza de que era meu direito usar o banheiro feminino, por exemplo. Então vi que o caminho era me engajar”, conta a discente do curso de Letras. A situação levada ao reitor teve como resultado resolução do Conselho Universitário que estabelecia estratégias e ações para combater a violência e a discriminação contra lésbicas, gays, transgêneros, transexuais na UFC e assegurava a possibilidade de inclusão do nome social nos registros funcionais e acadêmicos da universidade.

Foi uma grande conquista para Silvinha e para a comunidade trans. Mas parecia restrita. “Eu pensava que isso precisava chegar a mais pessoas. Naquele ano de 2013, o número de estudantes travestis e transexuais ainda era pequeno, mas era pequeno porque escolas e universidades eram espaços de exclusão. O nome social era nossa principal bandeira de luta. Então enviei ofício ao prefeito Roberto Cláudio solicitando que fosse adotado o nome social na carteira de estudante de Fortaleza. Para minha surpresa, em um evento público, ele anunciou que havia recebido a solicitação e que a partir de então essas pessoas teriam suas identidades reconhecidas”, conclui.

O espaço conquistado pela população trans é resultado de extensa mobilização na busca por respeito às especificidades e valorização das experiências particulares de cada indivíduo. Para Lucivania Sousa, estar junto das colegas em uma secretaria de estado é motivo de celebração. “Nossa inserção numa secretaria que trabalha as políticas públicas para direitos humanos é a certeza de que podemos mudar esse olhar preconceituoso da sociedade. E mais que isso: podemos superar as transfobias que existem. Acredito que futuramente poderemos sim viver no Ceará de Todxs, onde todas as identidades serão contempladas e todo mundo poderá ser feliz sendo quem é”, conclui.



  • Com informações e fotos da Coordenadoria de Imprensa do Governo do Ceará.

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