✈️Direto do Ceará: escrevo sobre Jericoacoara desde 1997, quando publiquei meu primeiro texto sobre este tesouro do litoral brasileiro. Era uma reportagem sobre a tranquilidade do local no Carnaval, fora do clichê da imagem do Nordeste saltitante atrás do trio elétrico.
Aqui só havia silêncio e um espírito hippie, "good vibes only", com muitos aventureiros paulistas chegando para montar restaurantes e pousadas numa vila de pescadores que mal oferecia energia elétrica. No mesmo ano, descobri uma duna usada como aterro sanitário, que me rendeu uma manchete crítica sobre o lugar (“o outro lado do paraíso”).
Foi importante esse trabalho por dois motivos: era muito raro um caderno de turismo publicar um texto negativo sobre um destino. Era inexistente alguém contrariar a narrativa da época: o consenso vinha da menção obrigatória ao Washington Post, que tinha publicado um ensaio de gringo deslumbrado sobre Jeri na busca pela "praia mais bonita do Brasil". 📰 1987: https://lnkd.in/dsmqQj2N
Achei a duna de lixo por acaso e por teimosia. Não estava num carro 4x4 (único meio de transporte possível para alcançar a vila) e, como repórter muito jovem e inconsequente, fiz o fotógrafo me acompanhar a pé subindo e descendo duna por duna até chegar a vila, uma tortura física recompensada pelos deuses do jornalismo com a imagem inacreditável de uma duna repleta de lixo, usada por pousadas, restaurantes e poder público para esconder os dejetos, com direito a urubus sobrevoando o monturo, e o mar ao fundo.
A pauta original era o feijão com arroz da cobertura de turismo: exaltar as belezas do lugar, recém-descoberto pelos gringos. Insisti no enfoque novo dos bastidores sinistros do desenvolvimento turístico. Deu certo: era a primeira reportagem ancorada em prova visual que questionava a ocupação desordenada da vila com impacto ambiental desprezado na época.
Retornar à região agora pra ver o que aquela antiga e distante vila se tornou após três décadas carrega muitas camadas de sentido: pessoal, emocional e profissional. Não foi só o local que se transformou.
Hoje aos 51 anos, eu também não sou mais 100% daquele repórter de 22 anos. E não dá pra avaliar se alguém ou algum lugar piorou ou melhorou. Há ainda muito daquele repórter em mim, como a sorte e o faro, assim como ainda há muito daquela Jeri hoje: este amanhecer cinematográfico, a luz natural que doura a vista, a ventania que move e redesenha dunas, levando a brisa e também o odor do lixo (ou o cheiro forte de peixe fresco ou podre que escapa do cesto das jangadas) que existe em qualquer lugar.
✍🏼E os alemães assumem o terminal de Jeri: https://lnkd.in/dWnWaZ33
📍 Praia do Preá, Cruz, região de Jericoacora
📸Sérgio Ripardo
🗄️ O que já escrevi sobre Jeri
- Com ex-XP como parceiro, marca hoteleira escolhe paraíso para estreia no Brasil: https://lnkd.in/dxGAb6Aj
- Latam inaugura voo para Jericoacoara: https://lnkd.in/dFFSDNq6
- Na região, 100 artesãos e 200 pescadores: https://lnkd.in/dNaM48Vh
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