A paisagem às vezes inóspita do sertão cearense é um lugar dos costumes pacatos e hábitos simples. Mas de intensa e diversa atividade cultural que se desenrola em múltiplos espaços públicos e privados, sagrados e profanos, no dia a dia do trabalho, das festas e celebrações. Ela esta presente no cancioneiro, nas danças populares, na xilogravura, no artesanato ou na literatura de cordel.
Apesar de um vasto patrimônio, algumas dessas manifestações foram perdendo força diante à proliferação de novas mídias e novos produtos culturais oferecidos pelo mercado. Tendência que atingiu o ofício da luteria (arte de fabricar instrumentos musicais) e o antigo costume de tocar rabeca, surgido na idade média, de origem ibérica e mourisca e que chegou ao Brasil com os portugueses. Para entender por que uma tradição tão enraizada vinha se diluindo na memória das comunidades, os pesquisadores Gilmar de Carvalho e Francisco Sousa conceberam o projeto Rabecas da Tradição – Performance e Luteria, vencedor do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, promovido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Com o objetivo de identificar as formas de sociabilidade desencadeadas a partir da música e trazer a tradição da rabeca de forma que dialogue com as dinâmicas contemporâneas, a iniciativa desenvolveu suas premissas a partir de um esforço etnográfico. Um mapeamento, feito de 2004 a 2014, identificou, aproximadamente, 180 tocadores de rabeca, em mais de 184 municípios cearenses. Segundo Gilmar de Carvalho essa “não é uma pesquisa fria, de biblioteca. Não acreditamos no pesquisador sedentário. Temos um contato visceral com o nosso objeto”. Por meio de visitas, os pesquisadores iam vivendo a rotina de cada fonte para registrar as palavras mais sensíveis sobre o significado da rabeca em suas vidas.
Coisa séria
Tirar um tirinete (som) não é visto como uma brincadeira ou um passatempo para os rabequeiros, o valor simbólico transcende a relação objetiva com o mundo. Para eles, é ser presenteado com um “donzin de tocar. Aprender sem escola, sem nada, porque a pessoa quando tem um dom que Deus dá é assim”, explica o rabequeiro Nerim Leitão.
Hoje, o projeto continua atuante, promove encontros acadêmicos, fomenta pesquisas sobre o tema, fomenta a criação de políticas públicas em cultura e realiza o evento musical Ceará das Rabecas, que já teve três edições (2011, 2012, 2013). Além dos resultados alcançados até aqui, pretende-se continuar a identificação dos atores que mantém o som da rabeca vivo, chamando a atenção para o processo de aprendizado, transmissão e fixação que se perfaz no campo da memória.
Ao longo de uma década de pesquisa, documentada em textos, vídeos e fotos, o Rabecas da Tradição – Performance e Luteria redescobriu, junto com a comunidade local, este costume que parecia congelado, compreendendo a música como meio de salvaguarda do patrimônio cultural.
Seis estados brasileiros estão representados entre os vencedores
Nesta edição do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, cada um dos seis premiados, dos estados do Ceará, de Goiás, de Minas Gerais, do Pará, da Paraíba e do Rio de Janeiro, receberá um certificado e um prêmio de R$ 25 mil. A cerimônia de premiação será em quatro de novembro, em Brasília.
Foram selecionadas três ações em cada uma das categorias:
Categoria I - iniciativas de excelência em técnicas de preservação e salvaguarda do Patrimônio:
•Ação: Rabecas da Tradição: performance e luteria. Os rabequeiros, tocadores e fabricantes artesanais da rabeca, mantêm vivo o som deste instrumento, no interior do Ceará, como forma de preservar a cultura do lugar onde vivem.
Proponente: Francisco Gilmar Cavalcante de Carvalho
Estado: Ceará
•Ação: Projeto Respeitável Público, Respeitável Circo. A partir de diversas ações e de uma extensa pesquisa documental, o Projeto reacende a memória e a força de expressão cultural do Circo, em Minas Gerais.
Proponente: Sula Kyriacos Mavrudis
Estado: Minas Gerais
• Ação: Projeto Balsa Buriti Preservando a Memória Fluvial. Uma balsa feita da leveza do Buriti traz à tona o peso e força da memória, percorrendo, pelo rio, diversas localidades da região e mostrando este antigo costume de construir este tipo de balsa.
Proponente: Fundação Casa da Cultura de Marabá
Estado: Pará
Categoria II - iniciativas de excelência em promoção e gestão compartilhada do Patrimônio:
• Ação: Projeto Cabocla - Bordando Cidadania. Oficinas de um antigo costume, o bordado, são ministradas às presidiárias e aos presidiários da cidade de Goiás, tecendo novas histórias.
Proponente: Milena Curado de Barros
Estado: Goiás
• Ação: Memórias e colaborações através do audiovisual. No município de Zabelê, o pequeno gesto de uma câmera na mão é capaz de reviver e registrar o patrimônio cultural daquele lugar.
Proponente: Associação Cultural de Zabelê.
Estado: Paraíba
• Ação: Programa de Apoio à Conservação do Patrimônio Cultural - PRÓ-APAC. A ação propõe a revitalização de residências, como instrumento de manutenção da memória e de preservação do patrimônio Proponente: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro/Instituto Rio Patrimônio da Humanidade.
Estado: Rio de Janeiro
Lina Bo Bardi
A 27a edição do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade celebra também o centenário da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, responsável por inovações estéticas na arquitetura nacional. Veio para o Brasil junto com o marido, Pietro Maria Bardi, em 1946, onde participou ativamente da produção cultural do país, ao lado de nomes como Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Athos Bulcão, Burle Marx, Portinari, o escultor Landucci e outros. Projetou espaços culturais importantes, como a sede do Museu de Arte de São Paulo (MASP); o Teatro Oficina de São Paulo; o Museu de Arte Moderna da Bahia; e a Casa de Cultura, em Recife. Sua própria residência, conhecida como Casa de Vidro, foi considerada patrimônio Cultural pelo IPHAN em 2007.
Rodrigo Melo Franco de Andrade
O advogado, jornalista e escritor Rodrigo Melo Franco de Andrade nasceu em 17 de agosto de 1898, em Belo Horizonte. Foi redator-chefe e diretor da Revista do Brasil e, na política, foi chefe de gabinete de Francisco Campos, atuando na equipe que integrou o Ministério da Educação e Saúde do governo Getúlio Vargas. O grupo era formado por intelectuais e artistas herdeiros dos ideais da Semana de 1922. Rodrigo Melo Franco de Andrade comandou o Iphan desde sua fundação, em 1937, até 1967.
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