"João Guilherme da Silva Neto nasceu em Fortaleza, a 23 de abril de 1925. Morreu a 22 de dezembro de 2014. Desde os anos 1940 e por mais de seis décadas, exerceu as mais diversas funções em rádio, televisão, jornal e publicidade. Começou como cantor na antiga PRE-9 , tornando-se ídolo em programas de auditório, nos quais lançou repertórios dos compositores Lauro Maia, Mozart Brandão, Aliardo Freitas e Luís Assunção.
Na década de 1950, depois de uma passagem como assistente de direção da Rádio Tamandaré, de Recife, voltou a Fortaleza para dirigir a Ceará Rádio Clube, tarefa que lhe foi confiada pela direção dos Diários e Emissoras Associados do Brasil, empresa à época comandada por Almeida Castro, João Calmon e Paulo Cabral de Araújo, em nome do empreendedor Assis Chateaubriand. No período compreendido entre 1954 e 1960, na pioneira PRE-9, fez-se autor de inúmeros textos do radioteatro.
Em novembro de 1960, surge a Televisão no Estado do Ceará e Guilherme Neto é escolhido por Péricles Leal para dirigir a equipe de implantação do novo veículo de comunicação: a TV Ceará Canal 2, núcleo de produção local cuja teledramaturgia, anterior à aparição do vídeo-tape, lançou, dentre outros, Ary Sherlock, Cleide Holanda, Karla Peixoto, João Ramos, Marcus Miranda, Glice Sales e nomes hoje reconhecidos nacionalmente, como Renato Aragão, Aderbal Freire-Filho e Emiliano Queirós. Entre as centenas de programas que Guilherme Netto produziu, escreveu e dirigiu, está, por exemplo, Poeira Vermelha, a primeira telenovela da televisão cearense. É ele também quem lidera a equipe que adaptou para a linguagem televisiva a peça Os Deserdados, de Eduardo Campos, obra reconhecida em concurso internacional de TV na Espanha, com o Prêmio Ondas, fato que credenciou a produção cearense como uma das melhores do mundo, pois a referida adaptação dirigida por Hildeberto Torres conquistou a terceira colocação, dividindo a tão prestigiada comenda com as televisões da Itália e do Japão.
Como dramaturgo Guilherme estréia com A Barragem, denúncia sobre a chamada Indústria da Seca no Nordeste, peça produzida por Haroldo Serra e encenada, sob a direção de B. de Paiva, pela Comédia Cearense (1964).
No final da década 1960, - depois que o sistema de rede nacional de TV, por intermédio do vídeo-tape, concentrou no Rio e em São Paulo os centros de produção de televisão - Guilherme Neto tornou-se editor e diretor comercial, respectivamente, dos jornais Unitário e Correio do Ceará. No início da década 1970 , volta à direção da TV Ceará Canal 2 e a sua gestão é marcada por três acontecimentos históricos para a televisão cearense: a implantação do sistema de transmissão em cores , a edição do primeiro telejornal vespertino e a realização dos programas Porque Hoje é Sábado, de Gonzaga Vasconcelos, e Show dos Mercantil, de Augusto Borges, responsáveis pela difusão do movimento musical protagonizado por Augusto Pontes, Belchior, Fagner, Ednardo. Teti, Rodger Rogério e Jorge Melo, dentre outros.
Com texto de sua autoria, intitulado O Som, a Luz, As Cores e os Muitos Amores de Fortaleza, programa dirigido por Ary Sherlock, a TV do Ceará deixa de transmitir em preto e branco, iniciando, assim , uma nova fase de produção. É também de sua autoria a idéia pioneira de um telejornal transmitido ao meio-dia que, além de lançar novo horário no telejornalismo brasileiro, inova esse campo da informação, com inclusão ao vivo de repórteres e comentaristas especializados.
Afora esse pioneirismo, há que se destacar ainda , durante o final da década de 1960 e meados dos Anos 1970, a participação de Guilherme Neto como redator de publicidade, atividade também pioneira no Ceará, ao lado de nomes como Augusto Borges e Tarcísio Tavares.
Em 1974, surge a Televisão Educativa Canal 5 que implanta, sob a liderança do Professor Gerardo Campos, o sistema de tele-ensino de Primeiro Grau em nosso Estado, e, outra vez, Guilherme Neto é convocado para coordenar artisticamente mais uma emissora. Sob a sua direção artística, o Canal 5 reuniu professores e artistas que criaram mais um núcleo de produção , com teleteatros, telejornais e teleaulas.
Na década 1980 - quando a Universidade Federal do Ceará decide criar a Rádio Universitária - novamente Guilherme Neto, assumindo a direção artística da então nova emissora FM, integra-se à equipe fundadora, formada por Marcondes Rosa, Rodger Rogério e Clóvis Catunda.
Durante todo esse período, que começa na década de quarenta do século XX e adentra o século XXI, Guilherme Neto exerceu a função de cronista nos mais diversos jornais de Fortaleza, inclusive em O POVO (no suplemento Fame, de Lúcio Brasileiro, com a coluna Luzes da Cidade) e no Diário do Nordeste.
Por essa sua vocação de semeador de consciências, articulando a invenção e a intervenção de incontáveis produções no campo das artes, podemos em relação a esse mestre de gerações parafrasear os versos de Arthur Eduardo Benevides e dizer que de sua boca não brotam somente canções; de sua boca, em palavras fluviais, caudalosas, brotam também chuvas e sementes.
Detentor de talentos e detector de talentos, Guilherme Neto, meu amado tio João, se converteu em um paradigma de unânimes afetos, um santo profano, homem de coração constantemente grávido.
Sempre que se fizer o negrume da noite, haveremos de ouvir em nós a sua voz de seresteiro a despertar a lua. E assim, então, outra vez enluarados pelo vigor das graves e agudas paixões, poderemos ser, como preconiza Bilac, capazes de ver, de ouvir e de entender estrelas.
(Ricardo Guilherme)


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