Radialista Cláudio Teran-NA ESTRADA DA ETERNIDADE-Meu Pai se foi. Partiu. Sublimou. Subiu. De seus 95 anos, viveu pleno e autônomo por 93. Perdi a referência, mas o céu ganhou o patroleiro que Deus precisava. Até os 93 anos ele comia e se vestia sozinho. Decidia o tempero da comida, e cozinhava. Viveu firme e com qualidade de vida por quase toda a existência.
Votou até os 88 anos. Andou sozinho na rua até os 89, ia ao banco, sacava seu dinheiro, pagava as contas, ia e voltava de ônibus carregando sacolas de compras.
Quem me conhece sabe da força da nossa ligação. E o que vivi com ele, desde criança, o que vi e aprendi, e o que ele me ensinou pelo exemplo e por me guiar, me fizeram a pessoa, o homem que me tornei.
Quando andava com ele pelas estradas da vida, no alto da Patrol 12-E, vendo-o transformar terras virgens em caminhos de seguir, via o âmago da liberdade.
Com 8 ou 9 anos eu dirigia a Patrol pelas estradas da campanha, com ele ali colado ao meu lado, e parecia tão fácil, era segurar o volante e acelerar, e a 12-E seguia a trotezito pelas canhadas da Zona Rural...
Os banhos de açude no qual ele me banhava, e noites a beira do fogo ouvindo histórias de assombração que os homens da Prefeitura de Bagé contavam a beira do fogo e em rodas de chimarrão, me levavam ao colo e a busca da proteção e da minha segurança maior.
Aquelas mãos imensas seguravam a mão do menino e eu dava dois passos a mais para acompanhar sua passada resoluta nas caminhadas pela Bagé.
E era tanto amor e sempre foi tamanho o amor que o maior dos medos da minha infância era ficar sem os meus pais. Então nas noites escuras eu pedia a Deus para que os protegesse, e Deus bom me atendeu.
Sou abençoado por chegar aos 60 anos com Pai e Mãe vivos, e quis o destino que no ano dos meus 60, meu Pai seguisse sozinho na sua Patrol...
Fiquei pesaroso, doído, choroso e ao mesmo tempo grato. Já não sou aquele menino que rezava durante as noites escuras para que meu Pai não faltasse.
Mas o homem adulto que sou, egoísta, confesso se apegou a Deus pedindo que não o levasse. Queria ele pra sempre neste plano, mas entendo e aceito o desenlace do ciclo da existência, que o levou.
Ficam os ensinamentos, a voz, e as sensações. Nas noites geladas do Rio Grande do Sul, um dos maiores luxos da vida era o Pai levantar-se para ver se os filhos estavam bem em seu leito.
E não havia conforto maior que as mãos dele, com o zelo que só o amor possui, a erguer as cobertas até cobrir os ombros, a proteção contra o frio.
Não imaginei que um dia, em 2013, ele repetiria esse gesto comigo, num dos Janeiros em que o visitei, e fingi que dormia para sentir de novo o zelo do Pai cobrindo os ombros do filho que por certo será sempre o seu gurizinho.
Há caminhos celestiais a serem abertos pelo mais talentoso dos patroleiros, meu Pai.
Meu orgulho maior é ter sido seu filho...


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