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Medalha da Abolição para Preto Zezé

A trajetória de liderança de Preto Zezé foi esculpida na cultura e fortalecida na transformação social. Nascido em 17 de maio de 1976, e criado na Favela das Quadras, em Fortaleza, hoje o empreendedor, ativista, escritor, produtor cultural e musical é presidente global da Central Única das Favelas (Cufa). “De onde a gente vem somos criados na falta mesmo. E nossa arte é transformar dificuldades em oportunidades, o estigma em carisma, as carências em potência. Essa é a marca da cearensidade”, defende.


Preto Zezé é um dos nove agraciados com a Medalha da Abolição 2020-2022, em solenidade a ser entregue nesta sexta-feira (25), às 19 horas, no Palácio da Abolição.


A comenda, instituída em 1963, é concedida pelo Governo do Ceará em reconhecimento ao trabalho relevante de brasileiros para o Ceará ou para o Brasil. A solenidade de entrega será realizada no próximo 25 de março, dia em que os cearenses lembram a Data Magna do Ceará. O Estado foi pioneiro ao garantir em quatro anos antes do restante do Brasil, em 25 de março de 1884, a liberdade dos negros que aqui foram escravizados.

Ele ressalta que a Medalha da Abolição tem o papel histórico de promover reflexão em torno da luta para garantir um Ceará e um Brasil melhor para todas as pessoas. “Medalha Abolição em um país que tem 522 anos, mas tem 382 de escravidão. Então a nossa abolição ainda está inacabada. Temos que trabalhar muito para concretizar uma abolição integral, com dignidade de fato para as maiorias das pessoas, principalmente as pessoas negras que foram literalmente despejadas sem nenhum direito no dia 14 de maio de 1888”, reforça.

A homenagem, segundo ele, também é conquista coletiva que insere a favela em um lugar de potência, dignidade e poder.

Lugar de potência - Filho de um pintor e uma doméstica – Seu Chico Macumbeiro e Dona Fátima – que deixaram o Interior do Ceará para buscar uma vida melhor na Capital, Preto Zezé se orgulha do lugar onde nasceu e cresceu, a Favela das Quadras. “Teve muita luta na época para a urbanização e legalização daquele território. As pessoas tinham medo, diziam que lá era fedido, que era violento e que não ia ser legal. Como demorou na época muito fazer a transição dos barracos de lona e de lama para as casas de alvenaria, devido a isso, todos foram morar em alojamentos. A própria favela batizou onde ficavam os alojamentos de quadra”, conta.

Com a memória ele refaz todo o percurso traçado dentro da comunidade. “Nas Quadras eu conheci as ruas cedo porque fui lavar carros na rua aos 12 anos de idade. Foi quando conheci a realidade das ruas: as guerras, as disputas, os prazeres e a liberdade das ruas. Foi também onde eu perdi muitos amigos. Acabei sobrevivendo, aí conheci a cultura do Hip Hop e a dos bailes funks, e construí a ideia de identidade, de pertencer a algo, que era o nosso grande dilema”, destaca.


O nome Preto Zezé, inclusive, é resultado da positividade, autoestima e consciência adquiridas no movimento Hip Hop, principalmente no rap. “A ideia do [nome] Preto Zezé veio porque o Ceará, historicamente nesse período, tinha uma conveniência de dizer que não tinha negros aqui porque os pretos não estavam nem ali na favela. Estavam na beira de trilho. Então, até na faixa de pobreza, a gente estava mais abaixo. A invisibilidade, que é um dos elementos do racismo, é muito imposta nesse processo. Coloquei o nome Preto Zezé para gerar um constrangimento pedagógico. O Preto Zezé, de um estigma e vergonha, passou a ser nome próprio”, diz o homenageado, cujo nome de registro é Francisco José Pereira de Lima.

A partir disso, Preto Zezé deu início a transformações pessoais e coletivas que impactaram inicialmente o lugar de onde veio. “Conseguimos fazer vários movimentos que tiraram as Quadras das páginas policiais para páginas culturais, para cadernos gastronômicos e econômicos”, cita.

Das Quadras para o mundo - Essa capacidade de mobilizar o projetou para presidir a Cufa no Ceará, e assumir, em 2015, a presidência global da instituição. Fundada no Rio de Janeiro, em 1998, a Cufa atualmente está presente em 26 estados e no Distrito Federal, além de mais de 20 países.

- Produzimos uma agenda positiva nesses territórios, para que a gente consiga olhar a favela não como espaço de carência, tragédia e desgraça, mas como um espaço de potência e criatividade”, enfatiza.

Concebida e gerida por pessoas que moram e/ou vieram das favelas, a Cufa é reconhecida internacionalmente pelos projetos e ações que desenvolve nas áreas da educação, esporte, cultura e social em territórios de favela e periferia. A instituição ocupa as cadeiras de Habitação, Juventude e Afrodescendência na Organização das Nações Unidas (ONU).

- A gente faz a Taça das Favelas, dando visibilidade aos talentos do futebol. Criamos uma liga de empreendedores. Fazemos o Top Cufa para trabalhar com a parte de moda e modelos. Agora, estamos criando os Centros de Inovação para pensar soluções e startups. Sempre colocar a favela em um lugar de visibilidade, dignidade e potência”, diz.

Preto Zezé, que conhece bem como as desigualdades brasileiras isolam socialmente os moradores da favela, viu essa realidade se agravar ainda mais durante a pandemia da covid-19. “Na favela já vive a desigualdade. A gente já é doutor em tragédia, phd em desgraça e pós-doutor em desigualdade. Então não vem colocar problema, traz soluções. Mas o que a gente viu foi que, num país desigual como o Brasil, quando começaram as decisões de como tratar a pandemia, vimos que aquilo ia afetar mais a população das favelas”, relata.


Também foi nesse período em que lideranças foram reveladas e novos projetos foram criados. “A gente chegou em várias casas que tinha, muitas vezes, uma mulher, três ou quatro crianças, um idoso acamado, às vezes doente, sem nenhum apoio. E aquela mulher literalmente abandonada. Foi um caso desses que uma das mulheres lá da favela de Paraisópolis, a Elaine, nos inspirou a criar o Mães das Favelas. Esse programa nos deu um rumo, porque mostrou a parte mais vulnerável que era uma mãe sem ninguém por ela”.

Com o Mães das Favelas, a Cufa atendeu mais de 5 mil favelas, beneficiando mais de 3 milhões de famílias com a distribuição de 48.257,087 toneladas de alimentos, chips de internet, botijões de gás, entre outras ações. 

- Quando chegava essa ajudava nessas mulheres, a reação delas era impressionante. Eram a parte mais vulnerável, mas quando chegava ajuda nessas mulheres, elas desencadearam diversas ações de proteção de crianças e idosos. A gente viu que elas deixavam o dinheiro [da transferência de renda] dentro da própria favela. Economicamente elas estavam dando aula até para doutores de Economia. Foi quando a gente descobriu que éramos mais fortes do que pensávamos”, considera.

Ainda sobre os avanços, os Centros de Inteligência e Inovação da Cufa têm papel estratégico. O primeiro deles está sendo construído no Barroso, em Fortaleza. “A ideia de criar um ponto de encontro onde esses talentos e competências possam pousar, se encontrar e multiplicar. Nossa ideia é investir nessa articulação e fortalecimento dessas lideranças, homens e mulheres das favelas, que se multiplicaram. Esses Centros serão utilizados para transformar essa inteligência e potência em desdobramentos práticos”, afirma.


Para Preto Zezé, a possibilidade de criar um outro futuro mais justo e igual está na construção dessa agenda positiva, que também dialoga com o poder público e a iniciativa privada. “Para que a gente possa mudar a realidade e, com isso, algum dia produzir um grande programa habitacional para que não tenha mais favelas no Brasil. Mas, enquanto elas existirem, nós vamos lutar para que o dia a dia aqui seja o melhor possível”, conclui.

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