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Morre Lygia Fagundes Telles

 Morreu neste domingo (3 de abril de 2022), em São Paulo, de causas naturais, a escritora Lygia Fagundes Telles, aos 98 anos.

Lygia Fagundes Telles era a quarta ocupante da Cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele foi eleita em 24 de outubro de 1985, na sucessão de Pedro Calmon e recebida em 12 de maio de 1987 pelo acadêmico Eduardo Portella. Nasceu em 19 de abril de 1923, em São Paulo (SP).

Ciro Gomes - 

Lygia Fagundes Teles esbanjava sensibilidade, sutileza e a contundência que só uma grande alma feminina pode abrigar. Sua partida entristece o Brasil.

Bibliografia - Livros publicados pela Editora Rocco

Ciranda de pedra (romance, 1954, 2009)

Verão no aquário (romance, 1963, 2010)

Antes do baile verde (contos, 1970, 2009)

As meninas (romance, 1973, 2009)

Seminário dos ratos (contos, 1977, 2009)

A disciplina do amor (ficção e memória, 1980, 2010)

Mistérios (contos, 1981)

As horas nuas (romance, 1989, 2010)

A estrutura da bolha de sabão (contos, 1991, 2010)

A noite escura e mais eu (contos, 1995, 2009)

Invenção e memória (ficção e memória, 2000, 2009)

Durante aquele estranho chá (ficção e memória, 2002, 2010)

Meus contos preferidos (antologia de contos, 2004)

Meus contos esquecidos (antologia de contos, 2005)

Conspiração de nuvens (ficção e memória, 2007)

Capitu, escrito em parceria com Paulo Emílio Sales Gomes, inspirado no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis (roteiro cinematográfico, 2008)

Histórias de Mistério (2002, 2010)

Passaporte para a China (2011)

Um coração ardente (2012)

O segredo (2012)

Roteiro de Cinema

Capitu – 1999, escrito em parceria com Paulo Emilio Salles Gomes e inspirado no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, incluído no catálogo da Editora Cosak & Naify.

Antologias

Os Melhores Contos de Lygia Fagundes Telles (seleção de Eduardo Portella). Editora Global. 1982

Venha Ver o Pôr-do-sol e Outros Contos. Editora Ática. 1997

Oito Contos de Amor. (seleção de Pedro Paulo Sena Madureira). Editora Ática. 1997

Pomba Enamorada e Outros Contos Escolhidos (seleção de Léa Masina). Editora L&PM Pocket. 1999

Traduções

Para o alemão

Die Struktur der Seifenblase (Filhos Pródigos). Tradução de Alfred Opitz. Berlim, Suhrkamp, 1983.

Nachte Stunden (As Horas Nuas). Tradução de Mechthild Blumberg. Berlim: Rütten & Loening, 1994.

“Emanuel” (conto). In RESCHKE, Rudolf Helmut (org.). Phantastisch diese Katzen! (Fantástico este Gato!). Tradução de Alfred Opitz. Rheda: Bertelsmann Club, 1994, pp. 125-32.

“Kurz vor Mitternacht” (Missa do Galo, conto). In: LINS, Osman (org.). Kurz vor Mitternacht. Tradução de Katharina Pfützner. Frankfurt/Leipzig: Insel Verlag, 1994, pp. 104-16.

Para o espanhol

Las meninas (As Meninas). Tradução de Estela dos Santos. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1973.

Las horas desnudas (As Horas Nuas). Tradução de Basilio Losada. Barcelona: Plaza & Janes, 1991.

Para o francês

La Structure de la bulle de savon (Filhos Pródigos). Tradução de Inès Oseki-Dépré. Paris: Alinea, 1986.

Un Thé bien fort et trois tasses (Antes do Baile Verde). Tradução de Maryvonne Lapouge-Petorelli. Paris: Alinea, 1989. Paris: Le serpent à plumes, 1995.

L’Heure nue (As Horas Nuas). Tradução de Maryvonne Lapouge-Petorelli. Paris: Alinea, 1991. Paris: Le serpent à plumes, 1996.

“W.M.” In: BAREIRO-SAGIER, Rubén e LEÓN, Olver Gilberto (orgs.). Antologie de la nouvelle latino-américaine. Belfond/Unesco, 1991.

La Nuit obscure et moi (A Noite Escura e mais Eu). Trad. de Maryvonne Lapouge. Paris: Éditions Rivages, 1998.

La Discipline de l’amour (A Disciplina do Amor). Tradução de Maryvonne Lapouge-Petorelli. Paris: Editora Rivages, 2002.

Para o inglês

The Girl in the Photograph (As Meninas). Tradução de Margareth A. Neves. Nova York: Avon Books, 1982.

Tigrela and Other Stories (Seminário dos Ratos). Tradução de Margareth A. Neves. Nova York: Avon Books, 1986.

The Marble Dance (Ciranda de Pedra). Tradução de Margareth A. Neves. Nova York: Avon Books, 1986.

Para o italiano

“Le perle” (“As pérolas”). In: PORZIO, Domenico (org.). Le più belle novelle di tutti paesi – 1961 (Os mais Belos Contos de Todos os Países). Milão: Aldo Martello, 1961, pp. 291-300.

Le ore nude (As Horas Nuas). Tradução de Adelina Aletti. Milão: La tartaruga edizioni, 1993.

Para o polonês

“Klucz” (“A chave”). In: KLAVE, Janina Z. (organização e tradução). Opowiadania brazylijskie. Cracóvia, Wydawnictwo literackie, 1977, pp. 167-75.

W kamiennym kregu (Ciranda de Pedra). Tradução de Elzbieta Reis. Cracóvia: Wydawnictwo literackie, 1990. Este livro foi traduzido também para o chinês e o espanhol.

Para o sueco

Nakna timmar (As Horas Nuas). Tradução de Margareta Ahlberg. Estocolmo: Natur och Kultur, 1991.

Para o tcheco

Pred zelenym bálem (Antes do Baile Verde). Tradução de Pavla Lidmilová. Praga: Odeon, s.d.. Este livro foi traduzido também para o russo.

Edições em Portugal

Antes do Baile Verde. Lisboa: Edição LBL, [1971].

A Disciplina do Amor. Lisboa: Edições O Jornal, 1980.

A Noite Escura e Mais Eu. Lisboa: Edição LHL, 1996.

As Meninas. Lisboa: Edição LBL, s.d.

As Horas Nuas. Lisboa: Editorial Presença, 2005.

Participação em coletâneas

Gaby (novela). In: SILVEIRA, Ênio (ed.). Os Sete Pecados Capitais. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1964, pp. 241-68.

“Trilogia da confissão” (“Verde lagarto amarelo”, “Apenas um saxofone” e “Helga”). In: Os 18 Melhores Contos do Brasil (trabalhos premiados no I Concurso Nacional de Contos, promovido pelo Governo do Paraná). Rio de Janeiro: Bloch Editores, 1968, pp. 42-68.

“Missa do galo”. In: LINS, Osman (org.). Missa do Galo: Variações sobre o mesmo tema. São Paulo: Summus, 1977, pp. 99-109.

“O muro”. In: LADEIRA, Julieta de Godoy (coord.). Lições de Casa: Exercícios de Imaginação. São Paulo: Cultura, 1978, pp. 89-99.

“As formigas”. In: STEEN, Edla van (org.). O Conto da Mulher Brasileira. São Paulo: Vertente, 1978, pp. 125-36.

“Pomba enamorada”. In: STEEN, Edla van (org.). O Papel do Amor. São Paulo: Cultura, 1979, pp. 129-36.

“Negra jogada amarela” (literatura infanto-juvenil, conto). In: RAMOS, Rogério (org.). Criança Brinca, Não Brinca?. São Paulo: Cultura, 1979, pp. 21-30.

“As cerejas”. In: VIANA, Vivina de Assis (coord.). As Cerejas. São Paulo: Atual, 1993 pp. 4-15.

“A caçada”. In: LADEIRA, Julieta de Godoy (org.). Contos Brasileiros Contemporâneos. São Paulo: Moderna, 1994, pp. 35-8.

“A estrutura da bolha de sabão” e “As cerejas”. In: BOSI, Alfredo (org.). O Conto Brasileiro Contemporâneo. São Paulo: Cultrix, s.d., pp. 139-50.

Participou de várias antologias de contos, no Brasil e no exterior, entre as quais:

Modernos Ficcionistas Brasileiros. Org. de Adonias Filho. 1.a série, Editora O Cruzeiro, 1958.

Nova Leitura, V. 1958.

De Conversa em Conversa. Org. de José Afrânio Duarte.

Escritores. Org. Peres, 1964.

Viver e Escrever. Org. de Edla van Steen, 1981.

Los Grandes Cuentos del Siglo XX. Seleção de Edmundo Valadés. México, 1980.

Tigerin und Leopard. Zurique, Ammann Verlag, 1988.

Lives on the Line. Depoimentos de vários escritores. Org. de Doris Meyer. Los Angeles, Universidade da Califórnia, 1989.

Antologia do Conto Latino-Americano. Editora Belford, 1991.

Contos Mágicos e Fantásticos. Praga, 1998.

Depoimentos

“Por que escrevo”. In: O Escritor por Ele Mesmo. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 1997.

O Escritor nas Bibliotecas: Diálogos e Debates. Secretaria Municipal de São Paulo, 1997.

Escritores. Entrevistas de 43 ficcionistas de várias nacionalidades. 2002.

A Paixão pela Poesia. 2002.

Congressos, debates e seminários

Ciclo de conferências em homenagem a Machado de Assis, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil, 1989.

Feira Internacional do Livro, Göteborg (Suécia), 1990, a convite da Sociedade de Escritores Suecos.

Congresso de Escritores Ibéricos e Latino-Americanos, Buenos Aires (Argentina), 1990.

Congresso Internacional de Escritores, Milão (Itália), onde apresentou trabalho sobre “A personagem feminina segundo Lygia Fagundes Telles”.

18è Salon du Livre, Paris (França), 1998.

Feira Internacional do Livro, Barcelona (Espanha), 1998, onde o Brasil foi o país homenageado.

Discursos e conferências

Posse na Academia Brasileira de Letras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. Publicado em: Discursos Acadêmicos. Rio de Janeiro: ABL, 1992. Vol. 25.

“Álvares de Azevedo – A Escola de Morrer Cedo”. Conferência na Academia Brasileira de Letras, em 31/10/ 1991 e 15/10/2002. Publicada na Revista Brasileira n.o 31, pp. 113-119.

“Os contistas” membros da Academia Brasileira de Letras, no ciclo de conferências 100 Anos de Cultura Brasileira. ABL, 1997.

“As personagens femininas”, no ciclo de palestras do Comitê Feminino da ABL, 1998.

“Uma revisão de Machado de Assis”, nas Jornadas Acadêmicas, ABL e Folha de S. Paulo, 1998.

“Língua portuguesa – uma paixão”, no seminário A Língua Portuguesa em questão, do CIEE de São Paulo, 1999.

“Uma revisão de Machado de Assis”, no Ciclo Machado de Assis, ABL, 1999.

“A superioridade de Machado de Assis”, no ciclo A Língua Portuguesa nos 500 Anos do Brasil, ABL, 1999.

“Língua e literatura”, no seminário Idioma e Soberania – Nossa Língua, Nossa Pátria, na Câmara dos Deputados, Brasília, 2000.

Depoimentos e fortuna crítica

Entrevistas, inéditos, apresentações, dissertações e teses, ensaios, artigos de jornais e de revistas – consultar Cadernos de Literatura Brasileira – n.o 5, março de 1998.

Herbarium

Todas as manhãs eu pegava o cesto e me embrenhava no bosque, tremendo inteira de paixão quando descobria alguma folha rara. Era medrosa mas arriscava pés e mãos por entre espinhos, formigueiros e buracos de bichos (tatu? cobra?) procurando a folha mais difícil, aquela que ele examinaria demoradamente: a escolhida ia para o álbum de capa preta. Mais tarde, faria parte do herbário, tinha em casa um herbário com quase duas mil espécies de plantas. "Você já viu um herbário" - ele quis saber.

Herbarium, ensinou-me logo no primeiro dia em que chegou ao sítio. Fiquei repetindo a palavra, herbarium. Herbarium. Disse ainda que gostar de botânica era gostar de latim, quase todo o reino vegetal tinha denominação latina. Eu detestava latim mas fui correndo desencavar a gramática cor de tijolo escondida na última prateleira da estante, decorei a frase que achei mais fácil e na primeira oportunidade apontei para a formiga saúva subindo na parede: formica bestiola est. Ele ficou me olhando. A formiga é um inseto, apressei-me em traduzir. Então ele riu a risada mais gostosa de toda a temporada. Fiquei rindo também, confundida mas contente: ao menos achava alguma graça em mim.

Um vago primo botânico convalescendo de uma vaga doença. Que doença era essa que o fazia cambalear, esverdeado e úmido quando subia rapidamente a escada ou quando andava mais tempo pela casa?

Deixei de roer as unhas, para espanto da minha mãe que já tinha feito ameaças de cortes de mesada ou proibição de festinhas no grêmio da cidade. Sem resultado. "Seu eu contar, ninguém acredita" - disse ela quando viu que eu esfregava para valer a pimenta vermelha nas pontas dos dedos. Fiz minha cara inocente: na véspera, ele me advertira que eu podia ser uma moça de mãos feias, "ainda não pensou nisso?" Nunca tinha pensado antes, nunca me importei com as mãos mas no instante em que ele fez a pergunta comecei a me importar. E se um dia elas fossem rejeitadas como as folhas defeituosas? Ou banais. Deixei de roer unhas e deixei de mentir. Ou mentir menos, mais de uma vez me falou no horror que tinha por tudo quanto cheirava falsidade, escamoteação. Estávamos sentados na varanda. Ele selecionava as folhas ainda pesadas de orvalho quando me perguntou se já tinha ouvido falar em folha persistente. Não? Alisava o tenro veludo de uma malva-maçã. A fisionomia ficou branda quando amassou a folha nos dedos e sentiu seu perfume. As folhas persistentes duravam até mesmo três anos mas as cadentes amareleciam e se despregavam ao sopro do primeiro vento. Assim a mentira, folha cadente que podia parecer tão brilhante mas de vida breve. Quando o mentiroso olhasse para trás, veria no final de tudo uma árvore nua. Seca. Mas os verdadeiros, esses teriam uma árvore farfalhante, cheia de passarinhos - e abriu as mãos para imitar o bater das folhas e asas. Fechei as minhas. Fechei a boca em brasa agora que os tocos das unhas (já crescidas) eram tentação e punição maior. Podia dizer-lhe que justamente por me achar assim apagada é que precisava de me cobrir de mentira como se cobre com um manto fulgurante. Dizer-lhe que diante dele, mais do que diante dos outros, tinha de inventar e fantasiar para obrigá-lo a se demorar em mim como se demorava agora na verbena - será que não percebia essa coisa tão simples?

Chegou ao sítio com suas largas calças de flanela cinza e grosso suéter de lã tecida em trança, era inverno. E era noite. Minha mãe tinha queimado incenso (era sexta-feira) e preparou o Quarto do Corcunda, corria na família a história de um corcunda que se perdeu no bosque e minha bisavó instalou-o naquele quarto que era o mais quente da casa, não podia haver melhor lugar para um corcunda perdido ou para um primo convalescente.

Convalescente do quê? Qual doença tinha ele? Tia Marita, que era alegrinha e gostava de se pintar, respondeu rindo (falava rindo) que nossos chazinhos e bons ares faziam milagres. Tia Clotilde, embutida, reticente, deu aquela sua resposta que servia a qualquer tipo de pergunta: tudo na vida podia se alterar menos o destino traçado na mão, ela sabia ler as mãos. "Vai dormir feito uma pedra" - cochichou tia Marita quando me pediu que lhe levasse o chá de tília. Encontrei-o recostado na poltrona, a manta de xadrez cobrindo-lhe as pernas. Aspirou o chá. E me olhou: "Quer ser minha assistente? perguntou soprando a fumaça. - A insônia me pegou pelo pé, ando tão fora de forma, preciso que me ajude. A tarefa é colher folhas para minha coleção, vai juntando o que bem entender que depois seleciono. Por enquanto, não posso mexer muito, terá que ir sozinha" - disse e desviou o olhar úmido para a folha que boiava na xícara. Suas mãos tremiam tanto que a xícara transbordou no pires. É o frio, pensei. Mas continuaram tremendo no dia seguinte que fez sol, amareladas como os esqueletos de ervas que eu catava no bosque e queimava na chama da vela. Mas o que ele tem? perguntei e minha mãe respondeu que mesmo que soubesse, não diria, fazia parte de um tempo em que doença era assunto íntimo.

Eu mentia sempre, com ou sem motivo. Mentia principalmente à tia Marita que era bastante tonta. Menos à minha mãe porque tinha medo de Deus e menos ainda à tia Clotilde que era meio feiticeira e sabia ver o avesso das pessoas. Aparecendo a ocasião, eu enveredava por caminhos os mais imprevistos, sem o menor cálculo de volta. Tudo ao acaso. Mas aos poucos, diante dele, minha mentira começou a ser dirigida, com um objetivo certo. Seria mais simples, por exemplo, dizer que colhi a bétula perto do córrego, onde estava o espinheiro. Mas era preciso fazer render o instante em que se detinha em mim, ocupá-lo antes de ser posta de lado como as folha sem interesse, amontoadas no cesto. Então ramificava perigos; exagerava dificuldades, inventava histórias que encompridavam a mentira. Até ser decepada com um rápido golpe de olhar, não com palavras, mas com o olhar ele fazia a hidra verde rolar emudecida enquanto minha cara se tingia de vermelho o sangue da hidra.

"Agora você vai me contar direito como foi: - ele pedia tranqüilamente, tocando na minha cabeça. Seu olhar transparente. Reto. Queria a verdade. E a verdade era tão sem atrativos como a folha da roseira, expliquei-lhe isso mesmo, acho a verdade tão banal como esta folha. Ele me deu a lupa e abriu a folha na palma da mão: "Veja então de perto." Não olhei a folha, que me importava a folha? mas sua pele ligeiramente úmida, branca como papel com seu misterioso emaranhado de linhas, estourando aqui e ali em estrelas. Fui percorrendo as cristas e depressões, onde era o começo? Ou o fim? Demorei a lupa num terreno de linhas tão disciplinadas que por elas devia passar o arado, ih! vontade de deitar minha cabeça nesse chão. Afastei a folha, queria ver apenas os caminhos. O que significa este cruzamento, perguntei e ele me puxou o cabelo: "Também você, menina?!"

Nas cartas do baralho, tia Clotilde já lhe desvendara o passado e o presente. "E mais desvendaria" - acrescentou ele guardando a lupa no bolso do avental banco, às vezes vestia o avental. O que ela previu? Ora, tanta coisa. De mais importante, só isso, que no fim da semana viria uma amiga buscá-lo, uma moça muito bonita, podia ver até a cor do seu vestido de corte antiquado, verde-musgo. Os cabelos eram compridos, com reflexos de cobre, tão forte o reflexo na palma da mão!

Uma formiga vermelha entrou na greta do lajedo e lá se foi com seu pedaço de folha, veleiro desarvorado soprado pelo vento. Soprei eu também, a formiga é um inseto! gritei, as pernas flexionadas, pendentes os braços para diante e para trás no movimento do macaco, hi hi ! hu hu! é um inseto! um inseto! repeti rolando no chão. Ele ria e procurava me levantar, você se machuca, menina, cuidado! Fugi para o campo, os olhos desvairados de pimenta e sal, sal na boca, não, não vinha ninguém, tudo loucura, uma louca varrida essa tia, invenção dela, invenção pura, como podia? Até a cor do vestido, verde-musgo? E os cabelos, uma louca, tão louca como a irmã de cara pintada feito uma palhaça, rindo e tecendo seus tapetinhos, centenas de tapetinhos pela casa, na cozinha, na privada, duas loucas! Lavei os olhos cegos de dor, lavei a boca pesada de lágrimas, os últimos fiapos de unha me queimando a língua, não! Não. Não existia ninguém de cabelo de cobre que no fim da semana ia aparecer para buscá-lo, ele não ia embora nunca mais, NUNCA MAIS! repeti e minha mãe que viera me chamar para o almoço acabou se divertindo com a cara de demônio que fiz, disfarçava o medo fazendo caras de medo. E as pessoas se distraíam com essas caras e não pensavam mais em mim.

Quando lhe entreguei a folha de hera com formato de coração (um coração de nervuras trementes se abrindo em leque até as bordas verde-azuladas) ele beijou a folha e levou-a ao peito. Espetou-a na malha do suéter: "Esta vai ser guardada aqui." Mas não me olhou nem mesmo quando eu saí tropeçando no cesto. Corri até a figueira, posto de observação onde podia ver sem ser vista. Através do rendilhada de ferro do corrimão da escada, ele me pareceu menos pálido. A pele mais seca e mais firme a mão que segurava a lupa sobre a lâmina do espinho-do-brejo. Estava se recuperando, não estava? Abracei o tronco da figueira e pela primeira vez senti que abraçava Deus.

No sábado, levantei mais cedo. O sol forcejava a névoa, o dia seria azul quando ele conseguisse rompê-la. "Aonde você vai com esse vestido de maria-mijona? - perguntou minha mãe me dando a xícara de café com leite. Por que desmanchou a barra?" Desviei sua atenção para a cobra que disse ter visto no terreiro, toda preta com listras vermelhas, seria um coral? Quando ela correu com a tia para ver, peguei o cesto e entrei no bosque, como explicar-lhe? Que descera todas as barras das saias para esconder minhas pernas finas, cheias de marcas de picadas de mosquitos. Numa alegria desatinada fui colhendo as folhas, mordi goiabas verdes, atirei pedras nas árvores, espantando os passarinhos que cochichavam seus sonhos, me machucando de contente por entre a galharia. Corria até o córrego. Alcancei uma borboleta e, prendendo-a pelas pontas das asas, deixei-a na corola de uma flor, te solto no meio do mel! gritei-lhe. O que vou receber em troca? Quando perdi o fôlego, tombei de costas nas ervas do chão. Fiquei rindo para o céu de névoa atrás da malha apertada dos ramos. Virei de bruços e esmigalhei nos dedos os cogumelos tão macios que minha boca começou a se encher d’água. Fui avançando de rastros até o pequeno vale de sombra debaixo da pedra. Ali era mais frio e maiores os cogumelos pingando um líquido viscoso dos seus chapéus inchados. Salvei uma abelinha das mandíbulas de uma aranha, permiti que saúva-gigante arrebatasse a aranha e a levasse na cabeça como uma trouxa de roupa esperneando mas recuei quando apareceu o besouro de lábio leporino. Por um instante me vi refletida em seus olhos facetados. Fez meia-volta e se escondeu no fundo da fresta. Levantei a pedra: o besouro tinha desaparecido mas no tufo raso vi uma folha que nunca encontrara antes, única. Solitária. Mas que folha era aquela? Tinha a forma aguda de uma foice, o verde do dorso com pintas vermelhas irregulares como pingos de sangue. Uma pequena foice ensangüentada foi no que se transformou o besouro? Escondi a folha no bolso, peça principal de um jogo confuso. Essa eu não juntaria às outras folhas, essa tinha que ficar comigo, segredo que não podia ser visto. Nem tocado. Tia Clotilde previa os destinos mas eu podia modificá-los, assim, assim! e desfiz na sola do sapato o cupim que se armava debaixo da amendoeira. Fui andando solene porque no bolso onde levara o amor levava agora a morte.

Tia Marita veio ao meu encontro, mais aflita e gaguejante do que de costume. Antes de falar começou a rir: "Acho que vamos perder nosso botânico, sabe quem chegou? A amiga, a mesma moça que Clotilde viu na mão dele, lembra? Os dois vão embora no trem da tarde, ela e linda como os amores, bem que Clotilde viu uma moça igualzinha, estou toda arrepiada, olha aí, me perguntou como a mana adivinha uma coisa dessas!"

Deixei na escada os sapatos pesados de barro. Larguei o cesto. Tia Marita me enlaçou pela cintura enquanto se esforçava para lembrar o nome da recém-chegada, um nome de flor, como era mesmo? Fez uma pausa para estranhar minha cara branca, e esse branco de repente? Respondi que voltara correndo, a boca estava seca e o coração fazia um tuntum tão alto, ela não estava ouvindo? Encostou o ouvido no meu peito e riu sacudindo inteira, quando tinha minha idade pensa que também não vivia assim aos pulos?

Fui me aproximando da janela. Através do vidro (poderoso como a lupa) vi os dois. Ela sentada com o álbum provisório de folhas no colo. Ele, de pé e um pouco atrás da cadeira, acariciando-lhe o pescoço e seu olhar era o mesmo que tinha para as folhas escolhidas, a mesma leveza de dedos indo e vindo no veludo da malva-maçã. O vestido não era verde mas os cabelos soltos tinham o reflexo de cobre que transparecera na mão. Quando me viu, veio até a varanda no seu andar calmo. Mas vacilou quando disse que esse era nosso último cesto, por acaso não tinham me avisado? O chamado era urgente, teriam que voltar nessa tarde. Sentia perder tão devotada ajudadora mas um dia, quem sabe?... Precisaria perguntar à tia Clotilde em que linha do destino aconteciam os reencontros.

Estendi-lhe o cesto mas ao invés de segurar o cesto, segurou meu pulso: eu estava escondendo alguma coisa, não estava? O que estava escondendo, o quê? Tentei me livrar fugindo para os lados, aos arrancos, não estou escondendo nada, me larga! Ele me soltou mas continuou ali, de pé, sem tirar os olhos de mim. Encolhi quando me tocou no braço: "E o nosso trato de só dizer a verdade? Hem? Esqueceu nosso trato?" - perguntou baixinho.

Enfiei a mão no bolso e apertei a folha, intacta a umidade pegajosa da ponta aguda, onde se concentravam as nódoas. Ele esperava. Eu quis então arrancar a toalha de crochê da mesinha, cobrir com ela a cabeça e fazer micagens, hi hi! hu hu! até vê-lo rir pelos buracos da malha, quis pular da escada e sair correndo em ziguezague até o córrego, me vi atirando a foice na água, que sumisse na correnteza! Fui levantando a cabeça. Ele continuava esperando, e então? No fundo da sala, a moça também esperava numa névoa de ouro, tinha rompido o sol. Encarei-o pela última vez, sem remorso, quer mesmo? Entreguei-lhe a folha.

(Os melhores contos de Lygia Fagundes Telles, 1984.)

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Morre professor Salmito Neto

  Com profundo pesar, o Fortaleza Esporte Clube lamenta imensamente o falecimento do professor Salmito Ferreira Neto, que foi um dos maiores treinadores de Futebol de Salão (Futsal) do Estado do Ceará. - Em nome da presidência, diretoria e de todo o clube, o Leão do Pici presta sinceros e grandes sentimentos de condolência aos amigos e familiares por esta perda dolorosa. Além de desejar forças e conforto para todos". Jornalista Ronaldo Deber - Dizer adeus é sempre difícil. Mas dizer adeus de uma forma tão inesperada a uma figura como Salmito é praticamente impossível. Que o senhor o conduza e que dê forças a família e a todos nós seus amigos para suportarmos a saudade. Vai na paz com teu sorriso sempre maroto a nós brindar com tua presença". Salmito Ferreira Neto tinha 53 anos e sofreu um infarto, em Fortaleza. O velório acontece na noite desta terça-feira (17 de maio), em São Benedito. A missa de corpo presente será às 11 horas desta quarta-feira (18), seguida de sepultament

Inaugurada em Fortaleza 1ª Loja Pão de Açúcar do Brasil convertida do Hiper Extra

  O Pão de Açúcar reabriu nesta sexta-feira (20 de maio), a unidade Aguanambi, em Fortaleza (CE), onde antes funcionava uma unidade de Hipermercado Extra. Na verdade é a volta do Jumbo Pão de Açúcar 11, em Fortaleza.  O ponto foi convertido em Pão de Açúcar e marca a primeira inauguração das unidades que serão reformadas para a bandeira e a 12ª de Fortaleza, onde a rede está presente há 48 anos, fazendo parte do dia a dia da cidade e da vida dos fortalezenses.   A loja é aberta sob o modelo G7, o mais moderno da rede, que redesenha completamente a experiência de consumo e revitaliza o fluxo. Para melhor aproveitamento do espaço, a loja ainda tem um setor de alcoólicos e espaço pet e utensílios ampliados.  A nova unidade conta com 130 colaboradores diretos, sendo 30 terceirizados, e 50 indiretos, e, além disso, todos os funcionários da antiga operação foram realocados e continuam na loja. A loja tem 1.941,20 metros quadrados de área de vendas e está localizada na Avenida Aguanambi, 1393

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Morre Antônio Mourão

  Será sepultado neste sábado (30 de abril), às 16h30, no Cemitério Parque da Paz, o corpo do médico psiquiatra, poeta, antropólogo, escritor, comunicador e político Antônio Mourão Cavalcante. O velório acontece a partir das nove da manhã na Funerária Ternura, em Fortaleza. Antônio Mourão morreu nesta sexta-feira (29), aos 73 anos de idade. Ele nasceu em 11 de setembro de 1948. Chegou a ser candidato a vice-prefeito de Fortaleza em 2012 na chapa encabeçada por Elmano de Freitas (PT). Por anos foi articulista de O Povo e comentarista da Rádio AM do Povo. Deputado estadual Acrísio Sena (PT) -  Nosso abraço solidário aos familiares e amigos do professor Mourão,  que nos deixou nesta sexta (29). Médico psiquiatra, antropólogo, escritor e poeta, Antônio Mourão Cavalcante foi uma referência na reflexão crítica do cotidiano e da política. Sua palavra fará falta".

Na mesma sessão, juíza é eleita, nomeada e empossada desembargadora do TJCE

Após 32 anos dedicados ao Judiciário estadual, a juíza Maria do Livramento Alves Magalhães tomou posse como desembargadora do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) nesta quinta-feira (30). A magistrada inovou ao solicitar para assumir as funções no mesmo dia da eleição, diferente do que ocorre normalmente, em que a posse é reservada para um dia solene. Com 23 anos de atuação somente no 19º Juizado Especial Cível e Criminal (JECC) de Fortaleza, ela foi eleita por aclamação, pelo critério de antiguidade, na sessão conduzida pelo presidente do Tribunal, desembargador Washington Araújo. “Foi uma ascensão inovadora: eleição, nomeação e posse em única sessão, a pedido da própria desembargadora. Desejo boas-vindas à amiga de longas datas, colega de faculdade. A nobre desembargadora é dotada de todos os atributos para estar nesta Corte”, disse o chefe do Judiciário cearense ao saudar a nova integrante do Pleno do TJCE. “Assumo com muita honra este cargo, comprometendo-me a empreender tod

Caucaia informatiza agendamento para emissão de Identidade

A Prefeitura de Caucaia, por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (SDS), promove a partir desta quarta-feira (11) agendamentos informatizados para emissão de RG. Eles são feitos de forma presencial, no Centro de Referência de Assistência Social (Cras) Sede. Para agendar, os interessados devem comparecer ao posto de identificação da unidade portando documentação original e cópia. Os agendamentos ocorrem de segunda a sexta-feira, de 10 às 11 horas. A emissão do documento também acontece no Cras Sede. Estão isentos de pagamento da taxa para emissão de segunda via do RG: quem está recebendo seguro desemprego, quem tem RG com até nove dígitos e quem dispõe de declaração de inscrição no Cadastro Único. Além disso, menores de 16 anos devem comparecer acompanhados do responsável (pais, avós, tios de primeiro grau ou irmãos maiores de 18 anos munidos de RG original e cópia para cada menor). Ao longo deste ano, segundo a secretária-adjunta da SDS, Telma Diógenes, foram

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