SÃO PAULO - Irritado com o desrespeito com os torcedores no estádio e exclusão da população, principalmente de baixa renda, dos campos de futebol, o professor Marcos Alvito, da Universidade Federal Fluminense, criou a Associação Nacional da Torcedores (ANT), entidade sem fins lucrativos que já conta com mais de dois mil associados espalhados pelo Brasil. E para marcar a última rodada do Brasileirão, eles realizarão em todas as praças esportivas que terão jogos da primeira divisão uma manifestação bem humorada, porém crítica, como ele mesmo diz. É o Dia Nacional de Luta contra a Elitização do Futebol Brasileiro. Nesta entrevista exclusiva, ele fala sobre a formação da ANT, os problemas do futebol brasileiro e os projetos para o próximo ano. E aproveita para convidar a todos para chegar duas horas antes do início das partidas do campeonato, quando começarão as manifestações.
Como surgiu a ideia de formação da Associação Nacional dos Torcedores?
Foi em sala de aula, durante um curso para os alunos de graduação em História da UFF, chamado Leituras pra pensar o futebol. Por mais que lêssemos autores questionando a noção de que o futebol é o "ópio do povo", faltava demonstrar, de fato, que ele pode ser um instrumento de mobilização e de conscientização. Somado a isso, quando o Flamengo, que é meu clube, em um contexto de ameaça de rebaixamento, subiu o ingresso da arquibancada para R$ 50, a minha indignação alcançou um nível insuportável. Escrevi um manifesto, fiz um blog, postei na Internet, chamei os alunos e os amigos e tudo começou. Hoje somos mais de 2.000 pessoas em todo o Brasil, com vários núcleos regionais bem organizados e atuantes.
Qual o impacto que sua vivência na Inglaterra teve nisso?
Entre 2007 e 2008 estive lá pesquisando a questão do policiamento de torcidas. Fui a 40 jogos de todas as divisões, assisti às partidas da Premier League, da FA Cup, da Copa dos Campeões e até a FA Cup de futebol feminino. Também vi jogos na Escócia e no País de Gales. Fui com grupos de torcedores, com a polícia, em excursões, entrevistei jogadores, técnicos, autoridades, jornalistas, torcedores. Essa experiência me mostrou que o propalado sucesso do modelo inglês é um blefe de marketing: os estádios são cemitérios, como bem disse o Alex Ferguson, excetuando-se um ou outro como Anfield ou The Den (estádio do Millwall), o que é "maquiado" nas transmissões de televisão. Os clubes das divisões inferiores estão eternamente em crise, muitos deles fechando as portas depois de mais de um século de história, os torcedores não tem mais dinheiro para ir aos jogos da primeira divisão - exceto os muito ricos que não são muito torcedores - e há mais gente assistindo aos jogos nos pubs do que nos estádios. Os maiores clubes também estão endividados e muitos deles pertencem a pessoas não somente alheias à cultura do futebol mas muitas vezes de reputação duvidosa, possivelmente utilizando o prestígio do clube como escudo e sua contabilidade como forma de lavar dinheiro.
E o lado bom do futebol inglês?
Também vi coisas positivas: respeito ao torcedor na venda de ingressos - apesar de caríssimos -, transporte eficiente, uma polícia que investiga e prende ao invés de bater, museus que valorizam a rica história do futebol inglês e, principalmente, a paixão do britânico pelo futebol, em nada inferior à nossa. Ao voltar ao Brasil em 2008, percebi que estavam tentando implantar aqui somente o lado perverso do modelo inglês: elitização, transformação dos estádios em shoppings, exploração absoluta do futebol como mercadoria e, é claro, um bombardeio de marketing para vender este pacote como uma "modernização" necessária ao futebol brasileiro.
Quais são os principais problemas dos estádios no Brasil?
Em primeiro lugar, é preciso dizer que somos a favor de estádios confortáveis, o que não quer dizer estádios-shopping, feitos apenas para meia dúzia de privilegiados. Também somos contra a transformação do estádio em um estúdio de televisão. O Engenhão é o melhor exemplo disso: custou aos cofres públicos três vezes mais do que o previsto no projeto original, é um estádio apertado, com lances de arquibancada ridiculamente pequenos, com barras de ferro em frente aos assentos impedindo a manifestação dos torcedores, com escadas de escoamento obstruídas por cadeiras, sem nenhuma acústica impedindo que se crie um ambiente de emoção e rivalidade. Atrás dos gols existem placas que impedem o torcedor de ver boa parte da linha de fundo e inclusive a linha do gol, embora um ingresso para essas áreas custe R$ 30. Este, portanto, é o modelo perfeito do estádio-shopping: bonitinho mas ordinário. Feito para ser filmado pela televisão mas não para torcedores de carne e osso.
Qual a sugestão de vocês para os estádios?
O que queremos são que sejam construídos a partir de recursos que sejam fiscalizados, em obras cuja prestação de contas seja transparente e concebidos a partir da consulta aos torcedores. Quando se faz um cinema se pensa nos frequentadores do cinema, mas quando se faz um estádio no Brasil só se pensa no lucro das empreiteiras e das televisões. Nós temos muitos estádios antigos, sem nenhum conforto para os torcedores, literalmente caindo aos pedaços. A Fonte Nova antes da reforma seria o melhor exemplo.
Como será o evento conjunto antes das nove partidas do Brasileirão?
Neste domingo, 5 de dezembro, faremos o Dia Nacional de Luta Contra a Elitização do Futebol Brasileiro. Na verdade, começou na quinta, depois que a CBF antecipou em cima da hora - contrariamente ao que prega o Estatuto do Torcedor - Prudente e Internacional. O pessoal de lá foi o primeiro a fazer este protesto em defesa do futebol brasileiro como arte e cultura popular, contra este processo de elitização que funciona como um Robin Hood ao contrário: tira dos pobres - dinheiro, lugar nos estádios, expulsa-os de suas casas para a construção de estádios - para dar aos muito ricos, os "novos" torcedores classe A, empreiteiros, políticos corruptos, donos de rede de televisão.
A ideia é fazer uma manifestação festiva?
Somos torcedores, fazemos tudo com espírito festivo e alegre, até nosso protesto. No Rio teremos samba e funk, fantasias, bolas gigantes para as crianças brincarem, faixas provocativas... Cada ANT bola um protesto segundo as características da cultura local. Somos descentralizados e democráticos. Mas uma coisa eu posso garantir: teremos manifestação com festa em todos os estádios e na segunda as fotos e vídeos já estarão no nosso site.
Para concluir, quais são os projetos da ANT para 2011?
Temos um plano estratégico e basicamente iremos atuar em três frentes: ampliação da nossa base militante - e acreditamos que a médio prazo podemos chegar a um milhão de associados ou até mais, início de uma luta nos tribunais, empreendendo ações judiciais pela diminuição do preço dos ingressos e exigindo sistema especial de transporte para os torcedores, entre outros, e ampliação da democratização da ANT e fortalecimento da nossa organização.
Comentários
Postar um comentário