Affonso Romano de Sant'Anna morreu nesta terça-feira (4/3/2025), aos 87 anos, em casa no Rio de Janeiro. Affonso Romano de Sant'Anna morreu vítima de de Alzheimer. Nascido em Belo Horizonte-MG, em 27/3/1937, Affonso Romano era escritor e poeta.
Nas décadas de 1950 e 1960 participou de movimentos de vanguarda poética. Em 1961 formou-se em letras neolatinas pela então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UMG, atual Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Em 1965 lecionou na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), Estados Unidos, e em 1968 participou do Programa Internacional de Escritores da Universidade de Iowa, que agrupou 40 escritores de todo o mundo.
Em 1969 doutorou-se pela UFMG e, um ano depois, montou um curso de pós-graduação em literatura brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Foi Diretor do Departamento de Letras e Artes da PUC-Rio, de 1973 a 1976, realizando então a "Expoesia", série de encontros nacionais de literatura.
Ministrou cursos na Alemanha (Universidade de Colônia), Estados Unidos (Universidade do Texas e UCLA), Dinamarca (Universidade de Aarhus), Portugal (Universidade Nova) e França (Universidade de Aix-en-Provence).
Em sua Tese de Doutorado abordou uma análise da poética de Carlos Drummond de Andrade, com o título Drummond, um gauche no tempo, em que faz uma análise do conceito de gauche ao longo de sua obra literária.
Durante os anos de 1990-1996 foi presidente da Fundação Biblioteca Nacional, onde desenvolveu grandes ações de incentivo à leitura, como o Sistema Nacional de Bibliotecas.
Foi cronista no Jornal do Brasil (1984-1988) e do jornal O Globo até 2005. Ultimamente escrevia para os jornais Estado de Minas e Correio Braziliense. Foi casado com a também escritora Marina Colasanti, de quem se tornou viúvo em janeiro de 2025.
Cronologia
- 1962 - publica O Desemprego da Poesia (ensaio);
- 1965 - ministra cursos de Literatura Brasileira na Universidade da Califórnia (Los Angeles) e lança o seu primeiro livro de poesias, Canto e Palavra;
- 1971 - casa-se com Marina Colasanti, escritora e jornalista brasileira;
- 1972 - primeira edição de Drummond, o "Gauche" no Tempo, tese de doutorado iniciada em 1965. Publicada posteriormente em mais três edições;
- 1972 - publica Análise estrutural de romances brasileiros;
- 1975 - publica Poesia sobre Poesia;
- 1976 - leciona Literatura Brasileira na Universidade do Texas, EUA;
- 1978 - publica A grande fala do índio guarani;
- 1980 - publica Que País é Este?;
- 1984 - assume a coluna anteriormente assinada por Carlos Drummond de Andrade no Jornal do Brasil
- 1984 - publica O Canibalismo Amoroso, que lhe deu o prêmio Pen-Club;
- 1984 - publica Política e Paixão;
- 1985 - publica Como se Faz Literatura;
- 1986 - publica seu primeiro livro de crônicas, A Mulher Madura;
- 1987 - publica em parceria com Marina Colassanti O Imaginário a Dois;
- 1988 - publica a coletânea O homem que conheceu o amor;
- 1991 - publica em parceria com Marina Colassanti Agosto 1991: Estávamos em Moscou;
- 1993 - publica O Lado Esquerdo do Meu Peito;
- 1994 - publica Fizemos bem em Resistir;
- 1994 - publica Mistérios Gozosos;
- 2003 - publica Desconstruir Duchamp: Arte na Hora da Revisão;
- 2011 - publica Sísifo desce a montanha
- Prêmio Pen-Club
- Prêmio União Brasileira de Escritores
- Prêmio Estado da Guanabara
- Prêmio Mário de Andrade do Instituto Nacional do Livro
- Prêmio do Governo do Distrito Federal
- SANT'ANNA, Affonso Romano de (1992). Drummond - o Gauche no Tempo 4.ª ed. Rio de Janeiro: Editora Record. ISBN 85-01-03957-8
- VÁRIOS (2000). Nova Enciclopédia Barsa. 13. Rio de Janeiro: Encyclopædia Britannica do Brasil. ISBN 85-7026-493-3
- SANT'ANNA, Affonso Romano de (2010). Ler o Mundo. Rio de Janeiro: editora Global.
ABL: Com imenso pesar, a Academia Brasileira de Letras (ABL) lamenta a morte do escritor e poeta Affonso Romano de Sant’Anna, aos 87 anos, na manhã desta terça-feira (4). Mineiro de Belo Horizonte, ele foi um dos grandes cronistas do país e autor de mais de 60 livros de poesia e prosa. Era casado com a também escritora Marina Colasanti (1937-2025).
O poema ganhou a primeira página do Jornal do Brasil à época e foi traduzido para o francês, inglês, espanhol e alemão. Impresso em pôsteres, decorou a parede de escritórios, sindicatos, universidades e bares, refletindo sua enorme repercussão popular.
Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.
Uma coisa é um país,
outra um regimento.
Uma coisa é um país,
outra o confinamento.
Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno “Avante”
— e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um “berço esplêndido” para um “futuro radioso”
e éramos maiores em tudo
— discursando rios e pretensão.
Uma coisa é um país,
outra um fingimento.
Uma coisa é um país,
outra um monumento.
Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.
Deveria derribar aflitos mapas sobre a praça
em busca da especiosa raiz? ou deveria
parar de ler jornais
e ler anais
como anal
animal
hiena patética
na merda nacional?
Ou deveria, enfim, jejuar na Torre do Tombo
comendo o que as traças descomem
procurando
o Quinto Império, o primeiro portulano, a viciosa visão do paraíso
que nos impeliu a errar aqui?
Subo, de joelhos, as escadas dos arquivos
nacionais, como qualquer santo barroco
a rebuscar
no mofo dos papiros, no bolor
das pias batismais, no bodum das vestes reais
a ver o que se salvou com o tempo
e ao mesmo tempo
– nos trai.

Comentários
Postar um comentário