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Morre Clara Charf

Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva: Clara Charf nos deixou hoje, aos 100 anos de idade. Com seu falecimento, o Brasil perde uma mulher extraordinária. E eu perco uma companheira de muitas caminhadas. Corajosa, generosa, combativa e de grande maturidade política, Clara viveu o exílio, enfrentou a ditadura e defendeu incessantemente a democracia. Atravessou seu século de vida com uma flexibilidade bonita de quem sabia compreender o novo sem abandonar seus princípios, de quem olhava o mundo com lucidez e coração aberto. 

Convivi com a Clara por mais de 40 anos. Aprendi muito com ela sobre política, solidariedade, resistência e humanidade. E hoje me despeço dela com carinho, respeito e gratidão a essa grande brasileira que tanto fez pelo nosso país e por todos nós que tivemos a sorte de tê-la por perto.

O caminho de Clara Charf em defesa da paz, dos direitos e pela igualdade começou em 1945, quando fez parte dos protestos contra a bomba atômica durante a Guerra Fria e de vários congressos em prol da paz. Na década de 1950, lutou contra o envio de soldados brasileiros para Guerra da Coréia. Com o Golpe Militar de 1964, perdeu o companheiro Carlos Marighella, um dos líderes da luta armada contra a ditadura militar, assassinado em 1969. Ela teve seus direitos políticos cassados, entrou para a clandestinidade e foi exilada por quase dez anos e só retornou com a Anistia.

Seguia lutando com a lucidez de quem dedicou a vida à causa da igualdade. Clara Charf participou da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, é presidente da Associação de Mulheres pela Paz e conselheira emérita do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), órgão vinculado à Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR). Em entrevista ao boletim informativo Mulheres em Pauta, Clara Charf falou de sua trajetória feminista.

Trajetória de lutas-Estou nessa luta social desde 1945. Naquele tempo não existia o movimento feminista, existia o movimento feminino, das mulheres. Desde então sempre atuei na perspectiva da libertação das mulheres. Passei por todas as etapas da repressão, democracia e liberdade. Antes era o facismo, depois veio a democracia, com a derrota de Hitler. Pertenci a primeira Liga Feminina do Estado da Guanabara. Nossa luta era para as crianças terem creche, eram coisas que compunham a vida da mulher, mas não eram coisas específicas para as mulheres. Durante muitos anos participei da luta contra o custo de vida, o direito à habitação, direito à educação, direito à saúde, sempre as mulheres participaram muito de todas essas frentes.

Resistência-
No golpe militar, as organizações populares quase todas foram perseguidas e fechadas. Eu era da Liga Feminina do Estado da Guanabara, fechou tudo naquela época. Derrubaram tudo, acabaram com a Liga, passamos atuar clandestinamente, pelo direito a viver e à liberdade. Mas a luta continuou, depois mataram meu companheiro (Carlos Marighella). Fui obrigada a me exilar em Cuba, onde trabalhei como tradutora de cabine.

Direitos das mulheres-
Ao voltar, com o fim da ditadura militar me reintegrei no trabalho com mulheres. Recebi a proposta de ser candidata a deputada pelo PT. Tive 19.560 votos, mas não deu para eleger. As mulheres queriam que eu fosse candidata, mas meu sonho não era ser parlamentar. Era atuar no movimento feminista. Continuei trabalhando e participei de todas as organizações existentes. Eu trabalhei na primeira Secretaria de Mulheres do PT. Depois fui assessora da prefeita Luiza Erundina, entre 1989 e 1993, em um trabalho com mulheres na prefeitura de São Paulo. Logo depois, fui convidada a participar do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher .

Feminismo-As mulheres sempre lutaram ao longo da história da humanidade, mas o movimento de mulheres se desenvolveu a partir dos primeiros movimentos socialistas. Foi a partir daí que as mulheres começaram a se organizar. No Brasil, as mulheres sempre se incorporaram à luta democrática; umas mais, outras menos. Durante a ditadura militar as mulheres foram mortas, presas, torturadas, inclusive a ministra Eleonora Menicucci e a presidenta Dilma Rousseff.

No princípio, as mulheres não lutavam por defender seus direitos, mas se somavam às lutas pela democracia e liberdade. Só muito tempo depois é que elas passaram a buscar oportunidades iguais as dos homens para conquistar a igualdade em todos os terrenos, político, social e econômico.

A luta das mulheres é um processo que atravessou fases e épocas políticas diferentes, com suas bandeiras de lutas também diversas. No movimento pela anistia política, as mulheres se organizaram em várias frentes. Com a continuidade da luta a gente conquistou a democracia. O movimento de mulheres e o movimento feminista cresceram muito e estão em todos os estados do país.

Movimento de mulheres-O movimento de mulheres foi um movimento geral, as mulheres lutaram para que habitação fosse mais barata e que o posto de saúde atendesse o filho. Tem muitas experiências desse tipo de luta: casa decente para morar, ter trabalho para defender as crianças, ter creche, sempre tinha alguém fazendo esse tipo de trabalho. As lutas das mulheres, do ponto de vista da mulher e para a mulher se desenvolveu depois da segunda Guerra Mundial. As mulheres continuam umas solteiras, outras casadas. Isso não é problema algum, o problema é como elas se posicionam diante da vida, diante da luta diante dos problemas do país. No CNDM, praticamente todas as mulheres que estão aqui são feministas.

CNDM-Posso destacar que hoje as mulheres trabalham profissionalmente e politicamente em vários segmentos da sociedade, na cidade e no campo. Antes isso não acontecia, o lugar da mulher era cuidar da casa e dos filhos. O CNDM é uma expressão disso, são mulheres de todos os estados e de várias profissões que o compõem para discutir a emancipação feminina em todos os sentidos.

Outro avanço que conquistamos é o fato de o movimento feminista ter conseguido denunciar e colocar em evidência a violência contra a mulher, um problema ainda muito agudo. O Conselho está insistindo nesse trabalho que, dentre outros, é um dos mais importantes atualmente. Antigamente, a violência contra as mulheres só vinha à tona em casos escandalosos.

Hoje as mulheres têm maiores possibilidades de pressionar os órgãos da justiça e têm mais consciência e mais coragem de enfrentar esta situação. A Lei Maria da Penha foi um fator muito importante para ajudar a população em torno dessa luta. Porém, a violência ainda persiste. O que é trágico - mesmo que a sociedade tenha se desenvolvido e a mulher tenha ocupado mais espaço no mercado de trabalho - continua havendo violência.

Desafios-
É claro que as mulheres ainda enfrentam muitas dificuldades e ainda há lugares em que elas são discriminadas e não têm participação social e política. Há ainda muito a ser conquistado: igualdade em todos os empregos, igualdade salarial, mais cultura, emprego digno e decente para todas. São desafios que fazem parte da luta da mulher.

Desejos para o futuro-Que a presidenta Dilma faça um governo maravilhoso. Pra mim, como mulher, é um honra ver uma mulher sendo presidente da República. Espero que ela possa fazer muitas coisas em benefícios das mulheres. Quero que continue a democracia, a liberdade e que as mulheres possam usar toda a energia e a inteligência que têm para melhorar sua situação perante a nação brasileira.

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