Música e Gastronomia: quando notas e temperos dançam juntos na mesa.
Para celebrar hoje o Dia da Música, o timbaleiro Buja Ferreira compartilha sua trajetória, onde sons e sabores se encontram em perfeita sintonia
Talvez não seja coincidência a analogia entre Música e Gastronomia. A cozinha se transforma em um grande palco onde o artista, o chef, conduz, como maestro, a banda cheirosa e sensorial que embala sua criação. As panelas marcam o compasso, e os talheres, instrumentos inquietos, fazem chegar à mesa o alimento, tradução de uma deliciosa composição e harmonia.
A analogia cabe como uma luva em muitos músicos cozinheiros, cuja energia também vai para o prato que criam. Buja Ferreira, cujo nome de batismo é Gladson Ferreira Santana e que tem a gastronomia no seu DNA, nasceu e cresceu entre as panelas, pois os pais tinham um restaurante. Ele é cantor, compositor e músico da Timbalada.
Criativo, o timbaleiro inventou o peixe com banana-da-terra, além de ter batizado um prato que o inspirou em uma das suas viagens: a amendoada. O cantor, compositor e cozinheiro fez uma versão criativa da iguaria que o encantou e segue sendo sua trilha “sonora” de quase todos os dias. A história é deliciosa.
“Um certo dia eu estava viajando pra Juazeiro–Petrolina e tinha uma feijoada de amendoim. Aquilo ficou na minha cabeça. A gente [ele e o compadre Cabo Jaca] gosta muito de cozinhar e, quando chegamos em casa, eu disse: rapaz, vamos tentar fazer a receita! E a gente colocou as carnes secas com amendoim. Rapaz, vamos inventar um nome! Eu botei o nome ‘amem’, que é de amendoim, e ‘ada’, de feijoada: amendoada!”. Hoje, a amendoada acompanha o músico e seus colegas da banda, que se reúnem sempre que podem para compor e saborear o prato favorito feito por Buja.
Tanto na música quanto na gastronomia existe o conceito de harmonia. Harmonia de sabores, com a combinação equilibrada de ingredientes; na harmonia musical, uma combinação equilibrada de notas. O fato é que a música é intrínseca ao ser humano, tanto quanto a comida.
Muitos cozinheiros, em todo o mundo, já declararam que ouvem música enquanto cozinham. São vários os estilos musicais que acompanham os cozinheiros, alterando o estado emocional e, talvez, influenciando o modo de preparo da iguaria. Na verdade, quem nunca usou a música como suporte para suas criações — seja na gastronomia, na pintura, no labor da costura ou mesmo nos estudos, tendo como pano de fundo uma trilha sonora?
Jorge Washington, referência na Bahia como chef, ator e integrante do Bando de Teatro Olodum, sempre teve na música uma aliada da gastronomia.
“Eu sempre cozinhei ouvindo música. Eu cozinho cantando. Por isso eu criei o Projeto Culinária Musical, que é esse encontro da gastronomia, em que a música é um dos elementos mais fortes do encontro. Não é porque é um evento de culinária que interage com outras linguagens, mas a música está sempre ali. E, quando estou em casa ou faço aula-show, eu chamo Dan, eu chamo Denise, eu chamo Aira Soares. Sempre tem um músico do meu lado. A gente vai conversando, tocando música e cozinhando. Dessa forma que eu sempre faço.”
Tereza Paim, referência em culinária na Bahia, diz que na cozinha a música faz parte do processo. “Adoro MPB ou folk rock, tipo Jack Johnson, para o dia. Pela manhã ouço muita música clássica, sendo a 8ª Sinfonia de Beethoven o que me alinha para começar o dia. Tomo café ouvindo quase todos os dias. Já para a noite, adoro um remix lounge bem variado. Tenho um personal DJ, Elias Goca, que faz as playlists de nossa casa, e eu amo”, relata a chef.
E Buja, qual é a trilha sonora na gastronomia do timbaleiro? E Buja, qual é a trilha sonora na gastronomia do timbaleiro? Vamos ouvir o que diz o músico e chef. “Quando eu tô cozinhando, eu gosto de escutar muito Benito de Paula e AGP. Eu sempre começo ouvindo AGP.
Ele reforça: “A gastronomia com a música tem tudo a ver, porque nos encontros eu sou compositor, né? E meus amigos: ‘E aí, Bujão, vai ter o quê hoje? Quais são as delícias do Bujão?’ Eu falo: rapaz, tem amendoada, tem peixe-banana, tem o frango com abacaxi, tomam vinho, uma cerveja, e a gente começa a comer, a degustar as delícias do Bujão e a fazer música, e vêm as inspirações. Por isso que tem tudo a ver, a música e a gastronomia”, afirma.
Buja Ferreira entrou na Timbalada pelas mãos de Carlinhos Brown, que ouviu uma das suas composições por meio de um dos músicos de Brown, Jaguar Andrade. Jaguar assistiu a uma das apresentações de Buja e, ao final, gostou tanto que o chamou para compor com ele.
E aí a gente fez cinco músicas. Ele colocou no pendrive e foi pra Marrocos. Quando ele botou no carro, o pendrive… o carro que ia levar Carlinhos não foi. Aí Brown entrou [no carro de Jaguar], começou a tocar a música e falou: ‘Quem é esse cara, que banda é essa?’ Ele respondeu: ‘Rapaz, o cara é cantor, compositor, cozinheiro, Brown. Eu quero botar ele na minha banda’. E hoje eu sou o cantor da Timbalada”, conta, feliz e orgulhoso!
Além de tudo isso, o cantor e compositor faz um trabalho social com pacientes em alguns hospitais de Salvador. Com a sua banda, leva alegria para os que precisam de algum tipo de conforto na alma.
A Música e a Gastronomia parecem ter em comum a experiência sensorial que constrói emoções e memórias, por meio de sabores e sons, que costumam marcar grandes momentos das vidas de todos nós. Hoje, Dia da Música, uma homenagem a todos os músicos desta Bahia e do Brasil, infinitos e plurais; aos chefs, gastrônomos e curiosos da culinária que, com muito sabor e música, sabem trazer felicidade para os que celebram a vida! Viva a música! E a Gastronomia também.
E você que está curioso e quer experimentar a amendoada do timbaleiro Buja Ferreira, prepare-se para uma mistura de sabores e aromas que transformam a cozinha em palco. Esta receita rende cerca de 1 quilo.
Amendoada-Ingredientes:
- 1 kg de amendoim (verde)
- 300 g de carne de sertão
- 300 g de bacon
- 3 calabresas
- 3 tomates
- 3 cebolas
- 3 pimentões
- 1 cabeça de alho grande
- Coentro a gosto
- Cominho a gosto
- Corante a gosto
Modo de preparo: Preparando o amendoim: Comece escolhendo o amendoim verde, que você encontra em feiras, casas de farinha ou supermercados tradicionais. O amendoim japonês também funciona, mas esqueça aquele que assa ou o vermelho — eles não servem para esta receita. Lave bem os grãos e reserve, deixando-os prontos para entrar na panela.
As carnes: Corte a carne de sertão, o bacon e a calabresa em pedaços médios. Coloque na panela, lembrando de tirar o excesso de sal da carne de sertão.
O molho: Pegue os tomates, cebolas, pimentões, alho e coentro, coloque no liquidificador junto com coMúsica e gastronomia: quando notas e temperos dançam juntos na mesa.
Cozinhando: Misture tudo — carnes, amendoim e molho — em uma panela grande de pressão. Deixe cozinhar por cerca de 40 minutos.
Dica: A amendoada fica ainda melhor com arroz branco, molho lambão e farinha.
- @isabel _qoliveira
- belaoliveira2729@gmail.com
- Isabel Oliveira ( facebook)


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