Do Manjar Salgado, com origem na Idade Média, ao Manjar Doce dos portugueses, o processo de aculturação do Manjar Branco, sobremesa leve e deliciosa, levou a iguaria à condição de comida que faz parte das oferendas para Iemanjá.
- Acredito que seja um processo de aculturação que ocorreu aqui. Mas esse Manjar é feito com a farinha de milho branco. Só que, ao invés de ser envolto na Folha de Bananeira, ele é colocado num recipiente, numa travessa, em uma forma bonita. Ele possui os mesmos ingredientes que o nosso Acaçá Doce”, explica o chef e professor de História da Gastronomia, Elmo Alves.
A Receita que conhecemos hoje tem um percurso secular e provavelmente teve início na Idade Média. Acredita-se que o Manjar Branco tenha origem entre os Árabes, tendo o frango como o principal ingrediente. Portanto, uma iguaria que nasceu salgada e migrou para a Europa quando os mouros dominaram a Espanha e Portugal por séculos. O Manjar Branco, ou o Blancmage, como ficou conhecido na Europa, tem nome francês e significa “Comer Branco”.
Deve-se aos Árabes a introdução do Açúcar e das Receitas Doces em Portugal, transformando as diversas sobremesas em uma tradição. No entanto, dizem que é relativamente recente a transformação do Manjar Branco em Doce. Foi dessa forma que ele chegou ao Brasil pelas mãos dos portugueses. Já pelas mãos dos escravos africanos e a provável abundância do coco, a iguaria é feita no país com o nosso querido e versátil leite de coco no modo popular de cozinhar. Na cozinha do candomblé, ele se transforma e recebe um tratamento ritualistico.
- No Candomblé, tudo é feito de forma ritualística. Seja a comida que for [ofertada], o ideal é que essa comida seja feita por uma pessoa que entenda o seu sentido, sua importância, pois no rito da oferta é tudo que envolve a preparação. O ato de preparar requer cuidado porque toda comida que é ofertada é um instrumento de comunicação, então requer respeito e a ritualística que se faz necessária”, explica o chef Elmo.
Uma das festas mais esperadas pelos baianos, a celebração à Iemanjá no Rio Vermelho, mexe com a devoção, questões culturais e o pertencimento do povo baiano, cada vez mais integrado à própria cultura desde que nos anos 1980 o governo baiano resolveu trabalhar com o simbolismo da Bahia como incentivo ao turismo. Deu certo e hoje uma frase dita por populares talvez retrate muito bem esse pertencimento: 'Deus me livre de não ser baiano!’.
A expectativa para o Dia de Iemanjá, em dois de fevereiro, se espalha por Salvador, pelos terreiros, que até encomendam decoração para enfeitar o espaço para a festa de Iemanjá, pelos bares e bairros adjacentes, todos querendo agradar:
- A mãe que afaga, que alimenta, a mãe que adoça os caminhos, a grande mãe, a grande genitora”, diz Elmo Alves.
Elmo chama a atenção para Iemanjá como a grande mãe.
- É uma grande Orixá, uma grande Iabá, muito importante para o culto das religiões de matriz africana. Essa grande senhora, que também atende por Ieumanjá, cujo significado é mãe cujos filhos são peixes, faz alusão ao seu lado materno fraternal. Iemanjá é a grande mãe que acolhe a todos indistintamente, é a mãe protetora, é a mãe zelosa, é a senhora das águas”.
Iemanjá é a mãe que afaga, que alimenta, a mãe que adoça os caminhos, a grande mãe, a grande genitora
Elmo Alves, gastrônomo e historiador
Tereza Paim, que vive há quase trinta anos no bairro do Rio Vermelho, é devota da divindade das águas do mar e tem muita alegria em viver sob a proteção de Iemanjá.
- Eu tenho muita alegria em servir a Iemanjá, então eu acho que quando eu entro para festa, que eu faço a celebração, estou fazendo um serviço para a religiosidade, que as pessoas tenham o prazer de estar na festa, que eu possa estar compondo aquela festa, que é uma celebração para Iemanjá”, conta Tereza.
Em seu restaurante, Casa de Tereza, no Rio Vermelho, a grande chef de cozinha serve um menu degustação que oferece para Iemanjá e Iansã, e a sobremesa é o Manjar de Coco.
Para celebrar Iemanjá, vamos ensinar esta Receita simples de Manjar de Coco da Casa de Tereza, em uma interpretação um pouco mais autoral, que inclui coco ralado e é acompanhada por uma emulsão de Ameixa com Vinho do Porto. Odoyá!
Manjar de Coco-Ingredientes
- 500ml de Leite
- 500ml de Leite de Coco
- 50g de Amido de Milho
- 80g de Coco Seco Ralado Fino
- 170g de Açúcar
- 13g de Gelatina em Pó.
Modo de fazer
- Misture o Leite, o Leite de Coco, o Coco Ralado, o Açúcar e o Amido de Milho e leve ao Fogo, mexendo sem parar.
- Quando estiver cozido, como um mingau, adicione a gelatina dissolvida em um pouco de água morna.
- Deixe cozinhar por 4 minutos, desligue e coloque em forminhas, levando à Geladeira.
- Sirva com Mel de Ameixa.
- Mel de Ameixa
Mel de Ameixa-Ingredientes
- 250g de Ameixa sem caroço
- 250g de Açúcar
- 250ml de Água
- 200ml de Suco de Laranja
- 300ml de Vinho do Porto
- 1 Pau de Canela
- 1 Cravo
- 1 Cardamomo
- 1 Pitada de Sal
- 1 Pimenta Doce
- 4 Sementes de Pimenta do Reino
- 1 Anis estrelado
- 1 folha de Louro.
Modo de Preparo
- Faça uma calda por 20 minutos em fogo baixo com a água, Pimenta Doce e Açúcar.
- Inclua as Ameixas e as Especiarias (todas em um saquinho de tecido, pode usar
- perfex) e deixe cozinhar por mais 10 minutos.
- Adicione o Vinho do Porto e o Suco de Laranja, e deixe cozinhar por mais 20 minutos.
- Retire do fogo, deixe esfriar, retire as Especiarias e triture no Liquidificador.
- Outra opção é fazer com a simples Calda de Ameixa.
Com informações de Isabel Oliveira.

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